Parecer

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Quando Lulu Santos cantava em sua música “assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”, ele tinha muita razão. Passam-se anos e o comportamento das pessoas não sofreu uma mudança paradigmática. Dei-me conta disso quando reassisti depois de 19 anos (sim, 19 anos!) o vencedor do Oscar dos anos 2000, o polêmico “Beleza Americana” que ficou famoso por questionar o “American way of life” – ou seja, o estilo americano de viver.

Os personagens da trama são muito densos, com conflitos muito pessoais, mas o que une todos é a necessidade de parecer: Cada personagem se transveste com máscaras para parecer ser um “bom marido”, “uma vendedora de sucesso”, “uma jovem sexualmente ativa”, “um machão”… Tudo parece, mas não é!

Para muitos pesquisadores da pós-modernidade, o que define nossa sociedade e o que valora o ser humano é a capacidade de ‘ter’: ter bens, ter carros, ter criatividade, ter emprego… Enfim, ter coisas palpáveis para valorar. Bens e valores que possam ser produzidos por obra. Penso que o “ter” tem perdido o lugar para uma categoria mais abstrata e que é nossa velha conhecida: o “parecer”.

Não preciso de dinheiro, mas tenho que parecer rico. Minha vida está em frangalhos, mas eu preciso parecer feliz. Eu não sei o que quero da minha vida, mas preciso parecer decido. Essa projeção de aparência vem para satisfazer a projeção da imagem dos outros, porque nessa “brincadeira”, ninguém sabe mais qual é a imagem real. De forma muito significativa, as redes sociais e suas imagens poluem o imaginário humano e nos impelem a entrar nesse mecanismo do viver de aparências.

O problema é que a tirania do “parecer ser o que não se é” oprime e gera muito sofrimento. Carregar máscaras para satisfazer a imagem perfeita drena muita energia e, ao contrário do que se pensa, gera muita infelicidade. De tanto aparentarmos, diluímos nossa potencialidade e deixamos de nos autoconhecer. Advogamos em prol da diversidade e, no fim das contas, queremos nos nivelar a partir dos outros, condicionando a própria felicidade à vontade alheia.

Passaram-se 19 anos e ainda queremos imitar o protótipo da família do comercial de margarina, tudo isso para parecer… Talvez precisemos andar com passos de formiga, com cautela, mas com muita vontade de fusionar o ser e o parecer. Porque bonito mesmo é ser feliz, não parecer feliz.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.