Os umbigos sumiram e não houve protesto

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Se eu fosse louco defenderia a tese da existência de uma feitiçaria qualquer em curso, capaz de fazer desaparecer os umbigos femininos da face da terra.

Uma mandiga tão bem feita que só poderia ter sido protagonizada por uma bruxa muito má, que voa em vassouras, ostenta uma verruga enorme na ponta do nariz e passa o dia mexendo seu caldeirão , enciumada com todo charme que só o umbigo de uma mulher consegue ter.

Sim.

Se eu fosse louco, veja bem, diria que o desaparecimento do umbigo das mulheres está atrelado a uma feiticeira invejosa e sádica e tão desprezível quando a bruxa má do norte ou outra que envenenou a maçã de Branca de Neve.

Uma mocréia, com o perdão da palavra.

Porque não se enxerga mais o umbigo das mulheres. Em lugar nenhum, quiçá, até mesmo nos quartos de motel, à beira das piscinas ou sob a quentura da areia da praia.

Aposto que os profissionais colocadores de piercings estão tão ou mais decepcionados e quase em vias de ir às ruas protestar pela volta dos umbigos. Pois vos digo, se esse dia chegar, irei com eles, enfileirado na dianteira, de cartaz em punho e um só grito:

Queremos a volta dos umbigos, queremos a volta dos umbigos, queremos a volta dos umbigos.

Se tivesse vivido na década de 1970, saberia que vem de lá a origem dessa tendência insana de calças acima dos umbigos, chamada no mundo fashion de calça de cintura alta ou de cós alto. Nasci nos preparativos para os anos oitenta e por isso quando suficientemente capaz de observar e me refestelar com os encantos femininos apenas constatei o quão charmoso é um umbigo à mostra.

Por isso, nem me dei conta do quão inconveniente poderia ser a manutenção de uma conversa sobre a razão das mulheres usarem essas calças estranhas e engolidoras de umbigos, justo com uma, ainda mais, vestida com um destes modelos.

Se tivesse guardado só pra mim a tristeza pelo desaparecimento dos umbigos femininos, não teria ouvido um “tá bom, vou tirar a calça” meio sem graça, emendado por um “só vou andar de short curto”. Claro, que em meio a minha vontade de dizer: “sim”, “é isso mesmo”, “só ande de short curto”, preferi o silêncio.

Porque mesmo que no fundo seja mais agradável aos olhos um shortinho curto, a mulher precisa se sentir bem, feminina, poderosa e sexy. E dizem — pedi a opinião de duas ou três — essa versão atualizada das velhas “boca de sino” cumpre a risca essa constelação toda.

Faz as mulheres se sentirem bem, mais femininas, poderosas e sexies.

Sendo assim, e única e exclusivamente por isso, resta-me somente lamentar pelos umbigos, sufocados, escondidos e desprezados.

Mais: não irei às ruas em protesto porque se tivesse que escolher entre elas e os umbigos, optaria por elas.

Sempre, sempre e sempre.

Portanto, aos profissionais colocadores de piercings, minhas sinceras escusas. Não participarei do protesto mesmo querendo e desejando a volta dos umbigos.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.