Os próximos cinquenta dias serão cruciais para o futuro do país

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A primeira reação às manifestações de junho de 2013 foi de perplexidade. Nem o mais cascudo dos comentaristas políticos da televisão soube, a princípio, explicar o que de fato estava acontecendo e quais seriam as consequências do, então, despertar do “gigante”, como se tentou alardear à época. De carona no jingle publicitário que antecedeu a realização da Copa das Confederações (evento teste para a Copa do Mundo que viria a acontecer um ano depois), a população, abençoada pela hashtag #vemprarua, abdicou do conformismo de suas poltronas para entoar voz, primeiro, contra a tarifa do transporte público, depois contra o que quer que fosse, movida em sua maioria pelo bordão: “O gigante acordou”.

No encalço daqueles protestos, não necessariamente pela ordem, tivemos uma eleição presidencial, um novo impeachment, um ex-presidente preso, políticos de carreira condenados pela Operação Lava-Jato, ao menos duas greves gerais que contribuíram para a sensação de crescente desagrado categorizado pela divisão “mortadelas” e “coxinhas”, e que fez acender também um grupo de pedintes por uma inviável e retrógada “Intervenção Militar” absolutamente non-sense. Naquele junho de 2013, um manifestante acreano sintetizou aquilo que o governo (infelizmente) insistiu – ou se fez de desentendido – em não entender ou ignorar. Abre aspas: “O mais importante é que todos nos escutem. Eles precisam saber que existimos e que estamos indignados com o que tem acontecido pelo país. Todo mundo deve perceber que existe essa massa que não é cega, que quer mudança, sabe o que quer e não é uma massa alienada. O gigante acordou e vamos mantê-lo acordado. Vamos nos mobilizar e mudar a corrupção e tudo que tem acontecido”.

Aquela mobilização arrefeceu. As ruas, aos poucos, esvaziaram. O gigante citado intercalou momentos de sono profundo com rompantes de fúria e alguns dignos de esquecimento. As eleições pós Copa do Mundo no país mostraram um país dividido e uma população num crescente de insatisfação. Os políticos de um modo geral, besuntados pela aura de superioridade que lhes é peculiar, fizeram vista grossa e subestimaram a voz que ecoava, não mais apenas das ruas, mas pela grande rede de computadores como um todo, claro, especialmente nas redes sociais. O antes palanque tradicional de fechar esquina deu lugar a um palanque virtual, de pisada irregular, e que tanto pode se traduzir num passeio por uma estrada de tijolos de ouro quanto num mergulho fatal na mais traiçoeira areia movediça.

Em artigo publicado na edição de número 142 da Revista Piauí, o ensaísta e professor de Harvard, Bruno Carvalho diz que a novidade — neste 2018 — é que a esfera digital pode suplantar os modos de propaganda mais verticais e caros, como a panfletagem, o tempo de tevê, os comícios, etc). “Mesmo sem muitos recursos, uma campanha com potencial virtual é capaz de surpreender”, avalia. Em suma, tudo virou aposta e a chave parece estar justamente na total incerteza que se avizinha. Pela lógica das redes, pode-se supor que algumas pessoas antes desligadas da política hoje se sintam compelidas a tomar partido, num claro efeito de tudo que se iniciou no hoje longínquo 2013. Ao mesmo tempo, ainda não se sabe até que ponto as mídias tradicionais e as máquinas partidárias perderão espaço para as redes sociais na corrida presidencial. É um jogo às cegas. De tudo ou nada. Uma incógnita que só irá se desvendar conforme nos aproximarmos do dia D da corrida eleitoral.

E, aposto todas minhas fichas, nem mesmo o mais indeciso dos eleitores assistirá os intermináveis dias de campanha de rádio e tevê, com o afinco e dedicação com que maratona uma série na Netflix.

Em paralelo à dúvida que paira sobre a cabeça de toda nação, impossível ignorar a força destruidora da boataria e das notícias falsas, em especial num universo como a grande rede. As redes sociais muito mais que fonte de informação são um receptáculo de tudo e qualquer desejo, vontade e factoide que se pode imaginar. A tecnologia apenas ampliou a força de uma boa mentira. Nunca é demais lembrar Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda da Alemanha Nazista para quem uma mentira dita cem vezes torna-se verdade. Num mundo onde não se consegue mais distinguir quem é cordeiro e quem é lobo em pele de cordeiro, talvez, tenhamos que escolher as falsas verdades mais convincentes, antes que seja tarde demais e só nos reste fechar os olhos e brincar como nos tempos de criança de uni-duni-te, salame minguê, o escolhido foi você.

OS POSTULANTES AO CARGO

Há opções até encher as mãos. Se boas ou más, essa é a charada que o eleitorado precisa decifrar até 7 de outubro. Tem para todos os gostos, dos mais conservadores aos mais masoquistas; dos mais puritanos, aos mais extremistas.

O ex-governador de São Paulo Geraldo Alckimin, por exemplo, está longe de ser novidade. Em sua segunda corrida presidencial — foi derrotado por Luís Inácio Lula da Silva em 2006 — volta a ser a bola da vez do PSDB muito mais pela impossibilidade de Aécio Neves e José Serra pleitearem a chefia de estado outra vez. Muito provavelmente não fará nada que os governos de Fernando Henrique Cardoso não tenham feito nos anos noventa, mas tem a seu favor a desenvoltura e a experiência que a política exige, embora, isso não signifique lá grandes coisas. Confira o site da candidatura de Geraldo Alckimin.

 Marina Silva (REDE) foi Ministra do Meio Ambiente no governo Lula, deixou o PT e desde então cresceu enquanto alternativa para ocupar o cargo de Presidente da República. O, porém, é que seu ápice muito provavelmente já tenha passado e seu melhor momento — ou, aquele em que a candidata se encontrava com mais condições de assumir o cargo hoje ocupado por Michel Temer — foi, de fato, a eleição passada. É um nome que nunca deixou o imaginário coletivo, mas que já não dispõe do mesmo carisma de anos atrás. O mesmo, talvez, não se possa dizer de Ciro Gomes (PDT). Ex-governador do Ceará e prefeito de Fortaleza, foi deputado federal e estadual e Ministro dos governos de Itamar Franco e de Lula. No entanto, sua boa avaliação perante o cenário atual, em muito, deve-se a incerteza sobre o próprio Luís Inácio, que, embora pré-candidato pelo PT, deve ter sua candidatura vetada pelo supremo por estar preso desde abril. Sem Lula, chegou a ser aventada a possibilidade de Ciro abarcar os votos do ex-presidente. Embora isso jamais tenha se confirmado, o nome do pedetista está muito mais forte que nas suas outras duas candidaturas. Confira os sites das candidaturas de Marina Silva e Ciro Gomes.

Afirmar que Álvaro Dias (PODEMOS) e o senador e candidato derrotado em 2014, Aécio Neves, possuem ao menos uma semelhança não é exagero, tendo em vista a rejeição que ambos possuem em seus estados de origem — Paraná e Minas Gerais, consequentemente. Na lógica do ame ou odeie, o paranaense é o senador com maior número de seguidores no Twitter, embora esse dado — como já explicitado — seja uma incógnita do ponto de vista da quantidade de votos que possa representar e há indícios de que 60% desses seguidores tenham sido forjados via robôs — pratica recorrente em se tratando de redes sociais. É, talvez, entre todos postulantes aquele que melhor a insígnia “Político de Carreira” se ajuste, afinal, durante 42 dos seus 73 anos, ocupou cargos públicos — além de senador, foi vereador, deputado estadual e federal. Cabe destacar que Álvaro Dias foi eleito para o Senado Federal com extravagantes 80% de votos. Confira o site da candidatura de Álvaro Dias.

Esperava-se que a troca de comando arrefecesse os ânimos da população e pudesse alavancar, após duas décadas parasitando no poder, o PMDB e, por conseguinte, Michel Temer. Após sobreviver sofregamente aos dois anos de seu mandato tampão, o presidente impopular e a cúpula do “reformulado” MDB optou pelo ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles para a sucessão. De todas opções do atual cenário, talvez seja a mais anacrônica, pois, não apresenta absolutamente nada de novo, exceção a corajosa investida solo do partido que por anos viveu às custas de PSDB e PT. É a candidatura mais ingênua, pois, aposta na ilusão de reverter um quadro de ampla rejeição para um partido que muito raramente acrescentou algo à política do país. O site da candidatura de Henrique Meirelles, estranhamente, foi retirado do ar pouco antes do fechamento desse texto/reportagem.

Em se tratando de novidade, três candidatos se sobressaem, embora, com ideologias dispares. Jair Bolsonaro (PSL) tem origem no militarismo, foi vereador e acumula sete mandatos como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Sem papas na língua, diz o que bem entende, muitas vezes, sem medir as consequências das suas opiniões. Tornou-se uma pseudo-celebridade a ponto de ser taxado como “mito” pelos seus seguidores, que o veneram muito mais por falar o que pensa que por ser o candidato mais preparado a ocupar o cargo e ser a mudança que o país, de fato, precisa. Cabe, a quem interessar, a leitura de artigo da jornalista Elaine Brum, para o El País, publicado em 16 de julho último: “Bolsonaro e a autoverdade”. Ignorado no primeiro debate de presidenciáveis da tevê, João Amoedo (NOVO), fundou um partido em 2010 apostando justamente na significação da sua sigla. No currículo, possui histórico como executivo do Mercado Financeiro e, entre todos seus concorrentes, é o único que jamais ocupou cargos públicos anteriormente. Embora se apresente como alternativa à velha forma de fazer política, defende o liberalismo econômico e o conservadorismo de costumes. Como toda novidade que se preze, é aposta e aí, tanto pode dar certo, quanto errado. O último daqueles capazes de sustentar a bandeira da novidade nestas eleições é Guilherme Boulos (PSOL). Diferente dos dois anteriores, Boulos é talvez a personificação mais radical de esquerda (o que, guardadas as devidas proporções Jair Bolsonaro é em se tratando de direita) e talvez o candidato que mais se aproxime do que um dia Lula foi em termos de política social para o país. Contra ele, joga contra, justamente o radicalismo. Graduado em Filosofia e Psicanalise, Boulos já morou em ocupação de sem teto. Atualmente é o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Esteve ao lado do ex-presidente Lula nas horas que antecederam sua prisão em março/abril desse ano. Confira os sites das candidaturas de Jair Bolsonaro, João Amoedo e Guilherme Boulos.

Em meio a esses nomes, há o fator Lula, talvez — e, independente, de simpatizantes ou não — o maior líder político dos últimos trinta, quarenta anos no Brasil. Embora, pré-candidato pelo PT, o veto judicial a sua liberdade tende a fazer com que o ex-presidente tente migrar para o ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. O que não se sabe é se o tempo para uma manobra como essa será suficiente. Vale lembrar que quando todos holofotes e toda atenção do Brasil e do mundo apontavam para ele e seus fiéis companheiros, optou-se pela via mais espinhosa, talvez, por se acreditar que a prisão fosse temporária e que toda aquela comoção surtisse efeito apaziguador e até de consternação. Hipoteticamente falando, se à época Lula tivesse passado o bastão para Haddad, hoje, talvez o cenário fosse outro. No entanto, caso o fizesse, de certo modo, Lula estaria assumindo sua culpa publicamente. Às vésperas do início da campanha eleitoral, por meio de carta, o ex-presidente reafirmou sua candidatura reiterando que falará pela voz de Haddad e Manoela D’Ávila (que desistiu de sua candidatura às vésperas das convenções partidárias) que viajarão o país dizendo o que ele propõe para consertar o que o “golpe desarrumou” no país. Confira o site da candidatura de Lula.

A verdade, para todos os lados que um giro de 360 graus puder nos levar é que a corrida eleitoral é uma com Lula e outra, muito diferente, sem ele, e mais: seja céu ou inferno, respostas mesmo, só depois que esses cinquenta dias tiverem se extinguindo.

Até lá, parcimônia!

Post Scriptum: Atração do primeiro debate dos presidenciáveis, há ainda Cabo Daciolo (PATRIOTAS), que não parece o tipo que pretende ou mereça ser levado a sério. Vai do gosto do (e) leitor. O Google está aí para ser usado e abusado a qualquer hora do dia e da noite, portanto, fiquem à vontade. Em tempo, até o fechamento desse texto/reportagem, outras candidaturas de insignificante expressão foram registradas no TSE.

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Nos próximos dias, o blog continuará publicando textos relacionados à política, em especial a respeito das campanhas eleitorais e dos candidatos aos cargos de presidente e governador. Aguardem!

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.