Oito ou 80, 8 ou oitenta

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Eu tenho um grave defeito: não sei esconder ou fingir ou simular uma feição minimamente amigável quando fico irritado com alguém, alguma coisa ou situação. Sou, com o perdão do trocadilho, a personificação quase que perfeita do ditado “oito ou oitenta” ou “8 ou 80”, em numerais ou por extenso e vice-versa.

Tanto faz.

Se gosto, gosto; se não, fecho a cara e me transformo num ser intragável, azedo e irredutível.

Não fossem por esses três detalhes finais, até desconsideraria tratar essa faceta tão particular como um defeito, ainda mais, acrescida da palavra grave, que nesse caso, imputa uma conotação – pra dizer o mínimo – sisuda.

Má.

Brava.

E por ai vai.

Ontem, à mesa de uma confraternização, alguém me descreveu como um cara fechado. Há quem me chame – com toda razão – de difícil. E daí, sugiro outros adjetivos que provável fossem cair como uma luva de boxe na mão implacável de George Foreman, no auge de sua carreira, trinta anos atrás: teimoso e intransponível, pra ficar somente em duas.

Que tal?

Fechado, difícil, teimoso e intransponível e ainda por cima, revelando ser possuidor de um gravíssimo defeito.

Ai ai.

Fato é, que são muitos que me veem assim, como um cara fechado e difícil, e também, teimoso e instransponível. Bravo e etecetera e etecetera. Particularmente, não vejo problema nisso e pouco me importa o que conclusões precipitadas podem resultar.

Prefiro me ater, e eis o ponto crucial desse desabafo, às circunstâncias que me fazem sair do sério, transformando-me num ser intragável, azedo e irredutível. Por mais que precise admitir que não saiba esconder ou fingir ou simular uma feição minimamente amigável quando fico irritado com alguém, alguma coisa ou situação, faço das tripas coração para, no mínimo, manter o respeito.

Outros tantos não. Ligue a TV em qualquer noticiário e verás.

Da última vez que me vi impossibilidade de esconder, fingir ou simular uma maldita carinha de bom moço diante de uma situação desagradável, poderia muito bem, ter esbravejado, pedido satisfação e o escambau, mas, invadido por uma paciência infinita, apenas deixei passar, pois, aprendi, que a exceção de muito raras ocasiões, nunca há motivo para uma discussão acalorada, uma briga gratuita e xingamentos de baixo calão.

De novo a questão do respeito.

Ainda que em muitas oportunidades não consiga controlar esse meu grave defeito, mesmo assim, prefiro primar pelo respeito e pelo silêncio, pois este, já provou ser o melhor remédio, para toda e qualquer circunstância.

E ai, recordo tantas outras vezes, em que pautado pelo respeito e pelo silêncio, simplesmente deixei que a maré baixasse e, por isso, evitei colher frutos podres no futuro, possível, que pelo simples fato de me sentir melhor assim. Ter sido ensinado a pensar duas vezes antes de jogar a charrete na frente dos bois e fazer caca.

E, sim, posso ser o cara mais difícil e mais fechado do mundo, bem como possuir o mais graves de todos os defeitos, sem saber como esconder ou fingir ou simular uma feição minimamente amigável quando fico irritado com alguém, alguma coisa ou situação.

Acima de qualquer merda que falem ou façam comigo, vou preferir sempre o respeito e o silêncio, doe a quem doer.

Oito ou oitenta, 8 ou 80. Ah, tanto faz né!

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.