#obrigadohermeto

Hermeto Pascoal caminhava sem interrupções próximo ao portão 31 do Aeroporto Juscelino Kubistchek, em Brasília.

No seu encalço, um homem e uma mulher, bem mais jovens que ele. Deviam ser parte do seu staff, quem sabe músicos, empresários ou agentes da turnê.

Vestido com uma calça de linho bege e uma camisa azul estilo havaiana, calçava um tênis esportivo colorido, com listras alaranjadas, óculos e chapéu.

O cabelo grisalho preso em rabo de cavalo e a barba quase a alcançar o umbigo.

Nas mãos carregava uma caixa retangular, desses bags de instrumentos musicais, provável que guardiã de uma de suas flautas de estimação.

Os três se sentaram em uma das mesas de uma franquia da Subway e comeram seus sanduíches, tão despreocupadamente quanto andavam minutos antes. Levantaram-se e voltaram a caminhar pela ampla área de embarque e desembarque.

Sem nenhuma pressa, nem ninguém a lhes importunar, ou pedir uma foto ou autógrafo junto do ídolo.

E mais: sem nenhuma selfie para postar no Instagram com alguma hashtag do tipo #caracaehohermeto.

Não teve isso e provável que poucos ali tivessem conhecimento sobre quem era ele, afinal.

Chega a ser cômico. Quase uma piada. Afinal, como pode alguém em sã consciência não conhecer a obra e o talento de Hermeto Pascoal.

Se pudesse, roubaria um estrofe famoso da musica tupiniquim, só pra poder berrar depois:

– É a porra do Brasil.

E é mesmo. Como é.

Indiferente à presença do artista, no portão 31, a fila para o embarque cresce, tão logo a atendente da companhia aérea anuncia a proximidade da decolagem de um voo para Santarém, no Para.  Hermeto e o homem e mulher que o acompanham, ignoram o aviso e caminham. E caminham, e caminham mais.

Somem.

A fila diminui. Ate deixar de existir. A atendente da companhia aérea avisa, uma, duas e na terceira é taxativa em dizer: última chamada do voo para Santarém. E nada de Hermeto, nem do homem e da mulher que o acompanhavam. Uns bons vinte minutos depois dos sanduíches e do inicio da fila, a mulher, depois Hermeto e depois do homem, voltam.

E então a atendente anuncia: atenção, senhor Hermeto Pascoal (e também o nome do homem e da mulher que o acompanham), ultima chamada do voo para Santarém.

Eles entregam seus tickets de embarque. Hermeto não perde seu voo e nem pareceu ligar para isso. Caminhou e comeu e ninguém o importunou com fotos, autógrafos ou selfies. Não será alvo de nenhuma hashtag e muito provável tenha feito um show memorável em Santarém.

Eu estava no aeroporto desde as 8h.

Na noite anterior sai de casa com a impressão de estar esquecendo algo importante. Tranquei a porta, tentando ainda lembrar o que era. Embarquei no ônibus e depois no táxi com uma sensação ruim. Estranha.

Estava tenso.

E continuava assim, mesmo com três horas de folga para meu voo. Com uma sensação ruim e estranha. Era bobagem. Hermeto Pascoal me fez ver que todo meu estresse e tensão foi em vão.

A vida precisa ser vivida na simplicidade.

#obrigadohermeto