O vexame foi pouco

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Operações tapa-buracos deviam ser proibidas de propaganda.

Elas são, nada mais, nada menos, que o mais escrachado sinônimo de má gestão possível, ou, na melhor das hipóteses, a constatação de que alguém errou ou burlou o modus operandi. Acontece que nessa cadeia de favorecimentos e uma mão lava a outra instalada em todo e qualquer governo, muitos Brasil a fora, acostumaram-se a não ter outra coisa que promover.

Antes, fosse brincadeira, mas, máquina na rua é (tornou-se) sinal de trabalho e, aparentemente, um pavimento de qualidade duvidosa aqui e acolá é exatamente o que se precisa para colocar as máquinas em ação e o gestor aparecer bonitão na foto de vez em quando. A propósito, nesse universo fantasioso, coitado do assessor se esquece de avisar o chefe mor que o reles secretário resolveu fazer as honras do serviço sozinho.

Quando enxergamos um policial ou um guarda fazendo ronda estufamos o peito para falar em sensação de segurança. A lógica aqui é exatamente a mesma. Máquina na rua serve para conferir uma sensação de que alguma coisa está sendo feita, embora, muitas vezes não se saiba exatamente o que. Na adolescência, volta e meia minha mãe pedia que tirasse o pó dos móveis lá de casa. Embora considerasse o serviço um tédio, fazia, mais por obediência que outra coisa e nem sempre com o esmero que a atividade merecia. Pensando bem, acatar o pedido nunca me tirou pedaço e mesmo, sem tanto apuro, o importante era a sensação que o ato proporcionava, seja ele de limpeza, de respeito ou tão-somente de que alguma coisa estava sendo feita.

Aliás, e isso nem de longe é uma tentativa de apontar o dedo para esse ou aquele, ou, extravasar um desabafo tardio, mas, isso sim, reflexo da situação de completa pasmaceira que acomete a nação, ou se preferirem — afinal, é a palavra da moda — a Pátria. Às vésperas de outra Copa do Mundo a impressão que se tem é 7 a 1 foi pouco. Foi notícia dia desses: das doze cidades-sede em 2014, onze têm algum projeto que chegou a ser prometido para a Copa e que ainda está inacabado — e mais: sem garantia alguma de que um dia serão.

Vou soletrar: M-A-Q-U-I-A-G-E-M.

Diz a lenda que durante um período de completa falta de matéria prima para realização de tapa-buracos, cogitou-se utilizar cimento e restos de obras para, como diria no popular, “tapar o sol com a peneira” até que a situação fosse normalizada. Ah, mas isso não tem nada a ver com a Copa. Acontece que não é preciso uma Copa para justificar o mínimo em se tratando de planejamento e boa vontade política.

Talvez, nunca antes na história se mereceu tanto um vexame como aquele do Mineirão.

Uma pincelada nas justificativas para os atrasos nas obras da Copa apontam quase sempre para o mesmo lugar: problemas com empreiteiras, licitações, impasses judiciais e blá, blá, blá. Uma burocracia de proporções estratosféricas que há tempos empaca o desenvolvimento e, acima de tudo, faz-nos cada vez mais acomodados, do ponto de vista, de nos acostumarmos com o marasmo. Se fizermos o mesmo exercício para analisar as malfadadas operações tapa-buracos, certeza que o fruto não cairá muito longe do pé e, no mínimo, uma das justificativas anteriores se repetirá.

O protagonista meio trôpego da série do Meireles diria que a culpa é do sistema, que o sistema é como um câncer e que o sistema está corrompido. Até tentei imitar o jeitão sussurrado de falar do protagonista/narrador.

Desisti.

13Prefiro crer que um dia propagandear operações tapa-buracos transforme-se em um motivo para se envergonhar, assim como é avarento pensar que a Rússia será palco de alguma vingança e Neymar catapultado a uma espécie de semideus (mais do que já é). Por fim, só deixaremos de ser um bairro, vizinhança, comunidade, clube recreativo, sala de estar, município, estado, país, nação, Pátria, sério (a) quando compreendermos que operações tapa-buracos — leia-se: gambiarras — são paliativos e, portanto, temporários. Até lá, não me restam dúvidas: o vexame foi pouco.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.