O verbo desapegar, a sensação de paz e uma mochila nas costas

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As pessoas têm estranhado essa minha recente fase “desapega”. De olhares atravessados à incredulidade de quem não acredita que eu esteja me desfazendo da maior parte da minha coleção de CDs, que incluía a discografia do Judas Priest, por exemplo, meu aparelho de vinil, algumas camisetas do Rush e dezenas de livros, entre eles seis obras de J.R.R Tolkien e os dois e excepcionais livros do Caco Barcelos, além de uma versão ainda com cheiro de novo do clássico Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marques, só para citar alguns.

Aposto que há quem acredite que eu esteja enlouquecendo e que logo vá acordar de um período de transe momentâneo.

Não ligo e não dou a mínima.

Nunca estive tão em paz quanto estou agora. Pondo em prática, algo que há tempos especulava e só não fazia por medo ou por imaginar haver uma necessidade intrínseca de carregar todo o acumulado ao longo dos anos para onde quer que eu fosse.

Não há.

Eu ouvi, usei e li.

Várias vezes.

E, provável, lembrarei com um sorriso escandaloso no rosto da primeira vez que fiz compras na Galeria do Rock; das incontáveis vezes que desfilei orgulhoso com a T-shirt do Snakes and Arrows ou do Moving Pictures; da emoção que senti ao ler o capítulo que narra a morte do Rei Théoden ou de cada detalhe da narrativa precisa e contagiante do jornalista global ao apresentar os meandros e o ‘modus operandi’ das corporações criminosas que comandam o tráfico de drogas e outras atividades criminosas no estado do Rio de Janeiro.

Tudo isso está e permanecerá guardado com carinho na gaveta reservada as boas lembranças.

Quando criança eu tive um autorama. Amava aquele brinquedo até o momento em que ele deixou naturalmente de fazer sentido. Na adolescência tive um tênis Reebok — que virou crônica para o meu primeiro livro A gaveta do alfaiate — que custei a desapegar.

E assim será.

Acontece que talvez tudo isso faça mais sentido hoje para outras pessoas, amigos, colecionadores, pessoas mais magras, ávidos leitores.

Se pudesse carregaria apenas o que cabe numa mochila. Como se ali, nos confins imediatos de uma simples bagagem costal, pudesse representar todo meu universo. Ao menos o palpável e necessário. Somos em menor ou maior grau acumuladores. Desapegar, tenho aprendido, é verbo dos mais difíceis de conjugar. Digo isto, pois é algo que venho sentindo na prática.

Acostumamo-nos a empilhar coisas nas prateleiras, nas gavetas, nos armários, muitas vezes sem ouvir, sem usar e sem ler.

Sem necessidade.

Itens que em outras mãos podem ser muito mais úteis e fazer muito mais sentido. Não me arrependo de tudo que investi no passado. Não comprometi meu orçamento e me diverti um bocado consumindo itens supérfluos. Aliás, essa é sua finalidade. Divertir. Claro, que muitas vezes compramos bobagens que no fundo não nos servem para porra nenhuma.

Não foi o caso em relação a nenhum dos itens que hoje fazem parte do meu desapego. A vida é mais do que acumular e acumular. Importa mais a felicidade de um novo ouvinte, de um novo usuário — das camisetas — de um novo leitor. A vida é um ciclo e não podemos interrompê-lo. Tente. Desapegue. Faz bem.

Aliás, vale a pena repetir: se pudesse carregaria apenas o que cabe numa mochila.

Quem sabe um dia né.

***

Ah, quem diria, mas depois de inúmeros pedidos e cobranças – a Mônica Zanotto e a Dávila Kess que o digam – enfim, estou no Snapchat. Pra me achar é fácil: anton.roos.

No mais, a quem interessar, me acompanhem por lá. A ideia é sempre trazer uma novidade, uma dica musical, de literatura, além claro, de uma ou outra divagação, sandice e vez ou outra uma bobagenzinha. Provável que até o momento que enjoar do dispositivo, rá!

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.