O sufixo -ismo e as eleições

By  |  0 Comments

Há muitas palavras que são formadas com o sufixo -ismo. Esse sufixo greco-latino possui diversas  possibilidades de significado: Fenômeno linguístico (rotacismo), sistema político (parlamentarismo), religião (judaísmo), doença (acefalismo), esporte (hipismo), ideologia (marxismo). Além destes, o sufixo –ismo revela um fenômeno curioso que têm se delineado cada vez mais às vésperas das eleições presidenciais deste ano: Nunca respiramos ares de tamanho extremismo!

Acompanho vez e outra as “grandes” filosofias e reflexões de ditos “sabichões” nas redes sociais. Cada qual defendendo com unhas e dentes o seu candidato, na certeza extrema e absoluta que o seu candidato é a salvação para o país (messianismo). O clima é tão tenso, que é impossível criar um espaço sadio de diálogo sem troca de ofensas. Não tente discordar, argumentar ou perguntar! Não se deve questionar, pois este ato já te coloca no outro lado do ringue. Portanto, sintetizaram tudo em duas opções extremistas: ou você é de extrema direita (fascismo) ou de extrema esquerda (comunismo).

Enquanto candidatos vestem esta carapuça e vendem sua imagem ‘supostamente’ imaculada – criando um ilusionismo que maquie interesses pessoais e vantagens políticas – uma plateia alienada e pronta para defender o seu candidato vai somando cada vez mais inimizades, acreditando que depois das eleições tudo volta a normalidade. Lembro da única fábula bíblica, o ‘apólogo de Jotão’, que narra o diálogo das árvores em busca de um rei. A oliveira, a videira e a figueira negam (os mais capazes não aceitam liderar!), mas o espinheiro (aquele que não dá sequer sombra e que fere com seus espinhos) prontamente se proclama rei das árvores. Conclusão: Nem a maioria das árvores soube escolher um bom líder!

Somos a nação que muito ladra e pouco morde. Adoramos vestir verde e amarelo, buzinar nas ruas, falar bonito nas redes sociais (na verdade, mais ataques de ódio considerados patriotismo). E tudo termina onde? No abismo, em nada, porque definitivamente as pessoas não mudam. Não penso que a solução venha da troca de presidência, seja qual for eleita. A começar que tal e qual árvores do apólogo de Jotão, a maioria não tem condições, nem sequer conhecimento adequado para avaliar um bom candidato. Valores supérfluos como camaradagem, troca de favores obstaculizam a escolha sóbria de um bom candidato. Além disso, a “massa” é muito volúvel, hoje ama, amanhã odeia; a massa é muito suscetível por isso existem técnicas e técnicas de manipulação de massas desde a psicologia até o marketing. O povo, a maioria não é detentora da verdade. Sim, eu disse isso: A maioria não sabe o que é melhor.

O conceito de democracia que desenvolvemos no Brasil está bem longe de sua gênese. Os gregos designavam um regime político especificando o número daqueles que exerciam o poder. Assim, criaram a palavra “monarquia” que significa um só (mon) à cabeça (arche). Do mesmo modo, a “oligarquia” significa alguns (olig) à cabeça (arche). Logicamente, se os gregos quisessem evocar a ideia de que todos governam, ou “o povo exerce o poder”, teriam falado de “demarquia“. Não foi, no entanto, a palavra que escolheram e isso não foi um acidente. Na democracia, o povo não é necessariamente governante. O povo é a condição do poder ou a finalidade, mas em nenhum dos casos, o poder propriamente dito. Essa é nossa confusão. Portanto, não importa quem ganhe as eleições. Não adianta mudar o governo, porque o povo ainda é o mesmo. Essa democracia de –ismos não nos levará muito longe.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.