O Presidente está prestes a comprar um Fusca 69 0km

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Pode parecer um lance meio masoquista, mas, preciso confessar:

Gosto de assistir os pronunciamentos do Presidente.

O discurso oficial é, possivelmente, a tradução mais fiel para tudo que há de mais anacrônico no mundo. Toda vez que o dito Chefe de Estado aparece em Rede Nacional, a impressão passada é que, nos bastidores, as deliberações do governo são, todas elas, feitas em máquinas de escrever e os documentos oficiais redigidos — sempre, sem exceção — com a intromissão de um pedaço de papel carbono entre duas, talvez três folhas de papel sulfite.

Os relatórios e acompanhamentos, tanto das ações triviais de todo e qualquer governo quanto de uma crise avassaladora como está a qual estamos passando, parecem-me feitos por intermédio de faxes e telégrafos. Toda vez que vejo e ouço o Presidente fico convencido que o Palácio do Planalto possui, em posição de destaque, um desses orelhões, tão retrógrados, que funcionam com fichas telefônicas.

Por essas e outras, creio não ser possível que os doutos desse governo vivam no mesmo período que todos nós.

Dia desses, já não sei se no quinto, sexto ou sétimo dia de paralisação, uma palavra proferida pela cúpula do Governo ganhou aspas entre ela — quase como uma coroação em homenagem a esta novela mequetrefe das dezenove horas —, ora, não é verossímil e denota o desconhecimento do governo em relação, até, ao que se passa lá perto, nas imediações do Conic ou da Rodoviária do Plano Piloto.

“Infiltrados”, eis a palavra.

Alguém dentro do Executivo decidiu que a paralisação em curso está se mantendo por ordem de “infiltrados”. Não bastasse a sucessão de equívocos — da boca de um dos aliados e não interessa quem — concluiu-se pelo mais cômodo — que a única razão para a continuidade da greve é a existência de grupos “infiltrados” no movimento.

Sem me ater às razões iniciais do protesto, ora, são sabidas por todos, mas, dada a proporção tomada é, no mínimo, falta de respeito, apropriar-se de um adjetivo/substantivo masculino como esse para qualificar o todo do movimento. Esquece-se o Presidente e todos que o seguem, que o Brasil é um país de proporções continentais e, por isso, ungido dos mais diferentes anseios e liberdades (favor não confundir com libertinagem). É óbvio que há interesse de partidos de esquerda, de uma direita conversadora, extremista e até de grupos enamorados dos mais estranhos desejos — intervenção militar, por exemplo

O que parece óbvio, no entanto, é que o Governo Federal subestimou o movimento.

Os veículos de comunicação, não é de hoje, estão — gradativamente — sendo engolidos pelo fenômeno da internet. Em 2001, o sociólogo espanhol Manuel Castells no livro “A galáxia da internet” apontava, sem, talvez, dimensionar o caráter profético da sua afirmação: “A Internet é um meio de comunicação que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos com muitos, num momento escolhido, em escala global”. No universo paralelo do Presidente, entre um fax e outro, Castells talvez ainda seja um jovem ouvinte e torcedor da Seleção da Espanha na Copa do Mundo do Chile em 1962.

Infelizmente, ao longo dos anos, e por culpa de todos, os governos acostumaram-se a empurrar o máximo que podem com a barriga. Há alguns anos participei de uma série de reuniões visando a implantação de um programa de autossuficiência energética em prédios públicos. Ficou na conversa. Na promessa. No açúcar grudado no fundo da xícara de café. Não evoluiu. O que ninguém entende ou sabe ou sei lá, é que a distância entre teoria e prática é absurda e apenas boa vontade não é suficiente.

O Brasil, todos sabemos, é dependente do modal rodoviário e, aparentemente, não há debate ou discussão ou qualquer coisa referente à criação de alternativas. As ferrovias existentes e em atividade, basicamente, só servem ao escoamento de commodities para exportação. Outro ponto que denota o atraso do país em relação a qualquer país de primeiro mundo é o quão dependentes somos de combustível, como se não houvesse chance alguma do uso de uma alternativa viável do ponto de vista econômico.

O interesse é um só, em especial por parte das revendas de veículos: vender, vender e vender e com cada vez mais facilidades. Não duvido, que em meio desse ziriguidum todo, o douto Presidente estrague a já cambaleante programação televisiva para avisar do lançamento do novo Fusca 69.

Após dez longos dias de greve, soa triste pensar em quão raso é o uso oficial, entre aspas, de uma palavra como esta, infiltrados, para resumir a pandega toda.

Dá a impressão que o Brasil é um país de “infiltrados”.

Espiões.

Quero crer que não é.

Tampouco o Presidente, o mais novo proprietário de um Fusca 69, zero km.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.