O dia em que todos fomos árbitro de vídeo

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A título de desencargo de consciência, pus o indicador da mão direita para repetir o play e assisti bem mais que dez vezes o lance que originou o gol da Suíça na estreia da seleção na Copa da Rússia. De algum modo, precisava me aproximar do mesmo sentimento do Galvão Bueno e do inexpressivo Arnaldo César Coelho ao irradiarem toda sua repulsa para com o árbitro de vídeo. Necessitava, ao menos uma vez, ver o tão escandaloso empurrão, para, quem sabe, inculcar-me da mesmíssima indignação.

De nada adiantou.

Não vi empurrão algum que justificasse tanta rebeldia e, por isso, fui incapaz de me irmanar ao chororô global ante o revés do escrete verde-amarelo.

No entanto, há um outro vídeo (lance), registrado fora das quatro linhas, provável que nos bastidores da Arena Rostov, que basta uma única assistida para que se tenha certeza do veredito e, mais que um sentimento de indignação, ser acometido, isto sim, de um sentimento profundo de vergonha alheia.

Sinceramente, não sei o que se passa na cabeça de alguém que viaja de um extremo a outro do globo para acompanhar uma Copa do Mundo e ao invés de romper também as barreiras do mundo real (uma vez que as barreiras virtuais já foram transpostas há tempos), tenta se aproveitar da abissal diferença linguística para fazer piada e, principalmente, pagar de espertalhão na internet.

Entre o fim do ensino médio e o primeiro ano do científico, era quase obrigação repetir a mesma atitude do colega mais “popular” da sala. Um fazia, os que assistiram imitavam, o que foi vítima sentia-se na obrigação de revidar e assim por diante, tal qual uma roda que precisa ser constantemente movimentada. Por isso, bastou uma vez, alguém abaixar as calças de outro colega — sempre desprevenidamente — para que fosse instaurado um estado de alerta frequente entre todos meninos da turma. Não bastava proteger a sim mesmo, era preciso, assim que uma brecha aparecia, repetir o gesto com o colega mais desatento, como se fosse aquilo tudo necessário e mais, uma espécie de rito de passagem da puberdade para a adolescência e o que viria pela frente depois da maioridade.

Tanto tempo depois, confesso, mal consigo lembrar de alguma vez específica tampouco que motivações nos faziam tão bobos, a não ser o fato de sermos — à época — adolescentes e como tal, cobertos de um espírito inquieto e difícil de compreender, embora previsível e alicerçado nos costumes regentes. Via de regra, aquilo nunca foi mostra de nada, nem nos fez mais ou menos homens, ou, sendo o mais taxativo possível: machos. Até queria crer que esse vídeo revelado ao mundo pós 1 a 1 tivesse alguma relação do tipo, quem sabe uma aposta entre trogloditas ou, mesmo, sido alvo de algum tipo de edição. Antes ainda, que fosse mentira, uma dessas patacoadas que se apronta quando muito se tem 16 para 17 e mais espinhas na cara que o Alisson.

Mas, não.

A falta de limites da grande rede nunca esteve tão irmanada da falta de escrúpulos. Incrível como, quando menos se espera, surpreendemo-nos com a capacidade do homem em flertar com os remotos tempos da idade da pedra, da selvageria e de uma quase irracionalidade.

Se no momento do suposto empurrão sobre Miranda preferiu-se ignorar a tecnologia, o mesmo não se pode dizer deste outro vídeo. A identidade de seus protagonistas não é mais segredo e nem poderia ser diferente.

Todos sabem. Virou notícia. Só dar Google.

São bilhões de árbitros de vídeo espalhados pelo mundo, tão impiedosos quanto os responsáveis por auxiliar o juiz na estreia dos onze de Tite.

Parabéns, baita exemplo.

Brasil, sil, sil.

Pagar de santo do quintal de casa para dentro e posar de otário aos olhos do mundo.

Superexposição.

Uma espécie de gene capaz de acometer, sem escapatória, a todos homens, pois, um dia, mesmo que por um segundo, todo filho de Adão haverá de provar desse mal, mesmo que em seguida, como se nada tivesse acontecido se tenha a cara de pau de alegar que tudo não passou de uma infeliz brincadeira.

Nem gol anulado, nem pênalti, nem cartão vermelho, nada justifica tamanha imbecilidade.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.