O desafio de ser mulher

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Não é de hoje que ser mulher é um desafio. Sim, já conquistamos muitos direitos, aparecemos nas pautas e debates, estamos no mercado de trabalho, dentre outras situações que, ao longo de muito tempo, conquistamos – a ferro e fogo, diga-se de passagem. Atualmente, para muitas mulheres, já é possível ter mais liberdade e participação política do que as que nasceram poucas gerações antes de mim, nas quais os afazeres femininos ainda eram extremamente limitados à esfera privada.

Infelizmente, ainda hoje, enfrentamos situações nada agradáveis, que reforçam um machismo existente, o preconceito e até mesmo a violência contra a mulher. Não preciso citar alguns exemplos que logo vêm à nossa cabeça quando se fala nesse assunto, como o comércio e exploração sexual de meninas, dentre outras práticas ‘justificadas’. Não, não é preciso ir muito longe.  Quantas frases desconfortáveis e de assédio não já recebemos travestidas de “cantadas”? Sinto náuseas só de lembrar vagamente de algumas que, infelizmente, não foram completamente apagadas da minha memória, como outras tantas já foram. Cantada na rua não é elogio, é grosseria. E dizer que quem não gosta disso é “mal amada” não é argumento: é reforço da agressão. Elogio, admiração, é muito diferente e não gera constrangimentos.

Eu já mudei minha rota do colégio pra desviar de um psicopata, já tive amigas perseguidas por desconhecidos nas ruas, já chorei de ódio depois de ouvir agressões verbais, sei de mulheres que foram vítimas de estupro, algumas que ainda tiveram que escutar um ‘você se descuidou’ ou ‘duvido que você não foi por conta própria’. Já praticamente parei de usar saias e vestidos em algumas situações, como no ônibus, porque não bastasse o incômodo que é sempre ficar procurando uma “posição mais segura” no transporte, seja de calça ou saia, ainda tem o risco de alguém filmar ou tirar fotos das nossas partes íntimas. Já vi muitos caras forçarem a barra com as mulheres com a desculpa que estavam ficando, logo, ele não estava fazendo nada demais. E nem se fala no assédio sexual que acontece com estagiárias e profissionais do sexo feminino em qualquer profissão.

Já ouvi que “tal tarefa” é para mulheres, que mulher não devia estar na política, sem contar os olhares preconceituosos e machistas ao extremo quando dirijo – e essa foi uma das razões que me obrigaram a colocar insulfilm em meu carro -, mesmo sendo boa motorista e cuidadosa no trânsito.  Ainda tem as perguntas de porque você ainda está solteira (como se o casamento fosse a salvação da mulher) e a sensação deprimente e constrangedora de “ser comida com os olhos”. O lugar para frases ou expressões de cunho sexual é, sem dúvida, o de uma relação a dois, em momentos de êxtase, como expressão de amor/desejo/paixão. Fora disso não há espaço.

Eu não sou refeição, nenhuma mulher é. Porque quando sou devorada com os olhos me sinto um frango e não uma mulher admirada. Eu não sou a mulher-objeto das propagandas de cerveja e outros produtos, e me sinto ridicularizada e agredida como mulher quando vejo adesivos misóginos da Dilma, tendo como cunho uma agressão sexual. Qualquer um pode discordar do governo, não aprovar as políticas do país, mas ninguém pode agredir uma presidente pelo fato de ser mulher – e aqui incluo não apenas os adesivos agressivos, mas as expressões como ‘vadia’, ‘prostituta’, ‘arrombada’, dentre outras escandalosas e desrespeitosas que já ouvi.


E isso não se estende a homens, mas também a muitas mulheres que também são porta-vozes do machismo e de preconceito. Um clássico exemplo disso é a censura de outras mulheres por sua sexualidade ou maneira de vestir, bem como o julgamento de comportamento, como acontece frequentemente nos casos de traição, onde a ‘culpa’ quase sempre é da mulher, que ‘deu em cima’, ‘incomodou’, e é uma ‘assanhada’, pra não dizer outras palavras.

Quando os pais educam meninos e meninas de forma diferente, com duas medidas, há também uma perpetuação dessa prática. Outro exemplo é questionar que uma mulher foi bem sucedida na carreira por beleza ou ‘favores’ e não por competência e esforço, bem como pensar que uma mulher tem direito de não casar ou ter filhos. Acreditar que um marido/companheiro ganhe menos do que uma mulher é inaceitável ou que um homem sensível é fraco também revela um preconceito, um juízo de valor machista. Além dessas, outras tantas atitudes que endossam a ideia da incapacidade feminina.

É duro pensar no tanto de advertências e cuidados que as mulheres crescem ouvindo porque são mulheres. Rodeadas de conselhos, cuidados, vigilância, precauções que os meus irmãos ou primos, sem dúvida, não ouviram. Ser mulher é um desafio. Não falo isso com pesar, acredito que todas as mulheres precisam lutar contra esses preconceitos, por ações afirmativas, contra o machismo e a violência, que muitas vezes aparecem travestidos de cortesias, carinho e obrigações, quando na verdade são mais maneiras de opressão. É uma longa caminhada.

Para ler mais sobre o assunto, acesse os links abaixo.

Imagens: reprodução.

A violência contra a mulher no Brasil:

Feminismo para homens, um curso rápido:

O limite da cantada:

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