O Brasil não se leva a sério faz tempo

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Semana passada passei em branco aqui no blog.

Cheguei a esboçar alguns começos, dar encaixe mínimo nas peças soltas que aguardavam forma na minha cabeça. Todas tentativas partiam do princípio de que o Brasil não se leva a sério (via de regra, uma quase sequência a um artigo que escrevi há anos e que — infelizmente — se perdeu no ambiente virtual sem que ninguém sentisse sua falta).

Para aquilo que não é palpável, creio, ser natural o pouco caso.

Por isso não lamento, hoje, a falta daquelas linhas. O Brasil continua a não se levar a sério e continuará não se levando a sério amanhã e depois e por todo o sempre.

Não se trata de pessimismo, mas de constatação.

Quinta-feira passada visitei dois andares com parte do acervo e legado do escritor gaúcho Érico Verissimo no centro de Porto Alegre. Memória. Um espaço aberto e disponível à visitação, mas que — salvo momentos esparsos, recebe a atenção que merece.

Quanto mais proximidade maior é a sensação de deixar para amanhã ou depois.

É como aquela bicicleta que guardamos na garagem mas temos preguiça de usar. Não desaprendemos a pedalar, mas sempre adiamos a retomada dos exercícios. O acervo está lá, sabemos da sua importância, mas temos mais o que fazer.

Comodismo. Preguiça. Chame como quiser.

Aliás, sempre “temos” mais o que fazer.

Setenta e duas horas depois do meu encontro com a obra e o legado do homem que escreveu O Tempo e o Vento, e o Museu Nacional do Rio de Janeiro é consumido pelas chamas. Duzentos anos de história vira cinza. Não tive oportunidade de visitar o museu — nunca fui ao Rio, por isso jamais pude apreciar in loco seu acervo. Pode parecer piegas e isso tudo apenas mais uma lamentação que em nada vai acrescentar ao debate ou, pior, ajudar a evitar que outras tragédias como essa aconteçam.

O Brasil não se leva a sério e não tem interesse algum em mudar essa realidade.

Em meio a toda consternação pelo ocorrido, apropriei-me de um post do escritor português Valter Hugo Mãe no instagram, em especial, no trecho que diz “só em tempo de guerra, no grotesco que a guerra pode ser, coisas assim acontecem”. E mais: “fico com a impressão de que o Brasil está em guerra consigo mesmo”.

Está tudo errado. Virado do avesso.

Quantas oportunidades (governos) não passaram sem que providência alguma fosse tomada. É absolutamente embaraçoso pensar que agora, após o incêndio, brotará recurso e disposição pública para amenizar a tragédia. Por mais triste que seja, ei de concordar com o velho amigo, quando, categoricamente, afirma que no Brasil, ninguém liga para cultura, museu e biblioteca.

(Infelizmente) é fato.=A preocupação mor é com o revide, o combate, a luta, a guerra que insistimos em travar contra nós mesmos. Parafraseando a sempre brilhante Elaine Brum, “o Brasil perdeu a possibilidade da metáfora…o excesso de realidade nos joga no não tempo, no sem tempo, no fora do tempo”.

Somos cinza e nada mais.

Uma agência incomum de comunicação integrada.