Nascer

Arrepiei-me ao ouvir o áudio dos batimentos cardíacos do pequeno bebê gestado por um casal de amigos. O pai fez a gentileza de me enviá-lo. Na profundeza uterina, uma nova vida despontava. O anúncio de tal gravidez não veio em momento oportuno. Doença na família, crise financeira e uma enxurrada de problemas pessoais, familiares, coisa que se espalhou pelo país inteiro. O anúncio da nova vida deu-se na reta final deste ano o que me fez ponderar muito. Talvez essa seja a dicotomia mais irônica: terminar um ano, celebrando o nascimento.

Terminamos muitas coisas ao longo desse ano. Em boa parte, enterramos a dieta que não deu certo, o relacionamento que nos decepcionou e feriu. Sepultamos pessoas que amávamos – porque a vida também engloba a morte. Sou do tipo que se entrega à melancolia de avaliar o ano vivido. Não é um processo triste. Acredito no que Fernando Pessoa, poeta português, dizia: “melancolia é a alegria de estar triste”. E se pudesse definir o que significou 2016, diria que houve muita tristeza revestida de alegria ou muita alegria com nuances de tristeza. O ano não foi fácil para ninguém.

E qual a novidade disso? A vida nunca é fácil. Dadas as festividades dos cristãos, penso na realidade do nascimento do menino Jesus. Aquele casal de galileus gestando um bebê numa época de crise. Sem rumo, sem amparo social, verdadeiros refugiados em terras estranhas (e não venha me dizer que a crise de refugiados é algo do século XXI) largados numa estrebaria para o nascimento de uma criança. E de novo: a vida irrompe de onde menos se espera. O bebê nasce na imundície de um estábulo. Pois é, a vida é irônica. A vida gosta de nascer onde o terreno é árido.

O Natal em parte nos lembra de que a vida nunca está pronta, mas de que no meio de todas as intempéries ela insiste em nascer. E é assim que a vida renasce: prometemos no réveillon a nova dieta, voltamos a nos apaixonar e acreditar no amor. Conhecemos novas pessoas e fazemos novas amizades. Eu creio que a vida precisa nascer constantemente. Não é um pensamento fácil de se cultivar com tantas vozes negativas e pensamentos cheirando a gorgonzola. Mas é isso que dá sentido à vida – saber que as tristezas e as dificuldades não são eternas. E mais: descobrir que da dificuldade é que nasce a oportunidade. Que das cinzas veem o broto… Da lágrima brota o sorriso… Da dor do parto vem a vida!

Desejo que os batimentos do coração da pequena criança nos lembre de que enquanto o coração bate a vida sempre nasce. Feliz Natal – como costumamos dizer e nos cumprimentar por esses dias – que possamos nascer para uma nova vida no fim deste velho ano.