Não sou Bukowski

Todo exagero é prejudicial. Às vezes, o excesso pode transformar mentiras em verdades e vice-versa. Virar lenda. Uma mentira repetida mil vezes torna-se uma verdade. Goebbels, um exagerado, tal qual Hitler, seu líder. Eu sou exagerado. Não conto uma mentira até se transformar em verdade, mas sou réu confesso quando o assunto é exagero.

Um dia inventaram de me comparar à Bukowski. Aceitei. Depois de novo e de novo. E eu, bocó, deixei o exagero crescer e crescer. Qualquer tentativa em me comparar com o velho safado é um exagero, embora, uma delas esteja eternizada na contracapa do meu livro A gaveta do alfaiate.

Bá, sem devaneios, mas, mesmo após a centésima comparação, inclusa a do livro, a tentativa em me comparar ao dirty old man, será exceção à regra — ou à paranoia nazista — e não se tornará uma verdade.

Que fique claro: eu e Bukowski não somos um só.

Tampouco parecidos ou separados. Na-na-ni-na-não.

Charles era um gênio louco, bêbado e fanfarrão e eu, apenas um escritor iniciante, que passa a maior parte do tempo livre diante do computador escrevendo besteiras.

Okay, Henry Chinaski — vá ler Bukowski que você entenderá — também escreveu um monte de besteiras. Todo mundo já escreveu e, principalmente, disse um monte de bobagens.

Só pelo fato de termos a capacidade racional e quase infinita em usar e abusar das palavras cuspimos e vomitamos um mar de baboseiras todos os dias.

Para bem e para mal.

Eu, por exemplo, chamei uma pessoa de velha esses dias. Assim, escancaradamente. Sem medir as consequências. Apenas disse: tu envelheceu. Não aquele envelhecer de se contabilizar as rugas, a quantidade de remédios diários e as dores e etecetera.

Não.

Referia-me aquele envelhecer meio natural provocado pela mudança. Porque quando alguém muda ou resolve mudar drasticamente, a depender do ponto de vista ou do grau de convívio, é como se a pessoa abandonasse uma carcaça gasta para começar do zero. E de tão acostumados que estamos com a “velha” carcaça, acusamos o outro de envelhecer — como eu fiz —, apenas por não admitirmos que uma fase, talvez, tenha se encerrado e esteja na hora de dar início à outra.

Porque, chupando uma frase do mestre: “é quando você esconde as coisas que acaba sendo sufocado por elas”.

Eu exagerei ao acusar tal pessoa de ter envelhecido.

Ela apenas mudou. Cansou de esconder as coisas e continuar sufocada, sei lá.

Eu não tenho nada a ver com isso. Errei. Apostei meus poucos trocados no cavalo errado no grande prêmio. Bebi pouco, escrevi pouco, falei demais.

Isso.

Falei demais.

Fui comparado à Bukowski. Aceitei.

Uma, duas, dez, novecentas e noventa e nove vezes.

Resolvi consertar o exagero, ou, os exageros.

Seja daqueles que associam o que escrevo ao velho Buk, seja o meu, inconsequente, torpe e leviano, de acusar alguém que decide mudar de ter envelhecido, quase só porque abdicou dos palavrões e dos excessos.

Ah, vá.

Quem envelheceu fui eu, porra.

E não ouse arriscar a milésima comparação/mentira.

Eu e o velho Buk não somos nada parecidos.

Nada.