Não precisamos te engolir!

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No início da noite do dia 17 de julho de 1994 meu pai e meu irmão caminhavam agitados pela calçada da casa onde morávamos no interior do Rio Grande do Sul. O movimento na rua em paralelepípedo era nulo. A atenção estava toda ela voltada para a decisão por pênaltis da final da Copa do Mundo entre Brasil e Itália. Roendo as unhas no sofá da sala, eu era o único que assistia as cobranças. Por isso, acabei por me tornar o mensageiro do tetra, escancarando a porta para gritar que o Brasil era campeão do mundo depois de 24 anos na fila.

Àquela noite, em meio à carreata pela conquista, roubaram minha camisa da seleção. Lembro-me de ter olhado de soslaio, da janela do velho Fiat Prêmio, e visto meu algoz agitando o manto campeão como o prêmio de sua malandragem. Nunca mais tive ou vesti a camisa da Seleção Brasileira de futebol. Aliás, conservo, convicto, a teoria de que aquela conquista tenha sido o estopim da quase alienação coletiva que vivemos atualmente, passados 22 anos, dois meses e quatro dias do erro fatal de Roberto Baggio na marca da cal.

O tetra abriu brecha, por exemplo, para a CBF transformar o escrete verde amarelo em um produto meramente capaz de lhe encher os cofres e os bolsos dos seus manda-chuvas, supervalorizando talentos apenas razoáveis, sem que tivesse sido feito investimentos preventivos de manutenção de resultados e profissionalização do esporte — como um todo, no país — isso tudo envolto nos mais esdrúxulos esquemas de corrupção, tão nossos que quase adotamos como regra. Característica intrínseca. Sinônimo de Brasil.

Além do mais, a bola nas nuvens do craque italiano fez emergir um tal Galvão Bueno, talhado pela eternidade como a voz e opinião vigente a ser ouvida pelas pobres gerações seguintes, inclusive esta do primeiro título olímpico do futebol.

No sábado, 20 de agosto de 2016, a noite sangrava nos céus enquanto o maior pupilo da era Galvão Bueno e da confederação dos cofres cheios preparava-se para cobrar sua penalidade, podendo, ele, definir o futuro do esporte no país. Neymar marcou, o Brasil conquistou o tão sonhado ouro no futebol. Ele chorou, Galvão chorou e uma multidão, talvez, tomada pela febre da ocasião gritou a plenos pulmões: “o campeão voltou, o campeão voltou”. A cena, claro, de imediato, tornou-se emblemática e certamente será reprisada por muito tempo, seja pela mera lembrança do ouro, seja para a geração Galvão Bueno bater no peito antes de cantarolar, desafinada: “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”.

Pra variar, como se fosse um filme do final da década de 1990 sendo repetido, o 10, Neymar, “menino de ouro”, resolveu por bem imitar o velho lobo Zagallo — primeiro e, infelizmente, não único, que eternizou o jargão após a final da Copa América de 1997 na Bolívia — e propagar a frase mais mequetrefe da história esportiva deste país, possivelmente numa das maiores demonstrações de arrogância já vistas:

— Vocês vão ter que me engolir.

Triste, pra dizer o mínimo.

E ai vale as palavras do jornalista Mauro Cezar Pereira da ESPN, quando diz não restar dúvidas que Neymar é um craque com a bola nos pés, mas passa longe disso com as palavras. Aliás, bota longe nisso. O camisa 10 é possivelmente o pior exemplo de ídolo que poderíamos ter, muito embora, tenha cravado seu nome na história como um dos heróis olímpicos dos jogos do Rio 2016. Marrento, escorregadio, supérfluo, acabou protegido do treinador, quiçá por representar o sonho louco e desproporcional pela conquista do ouro a qualquer custo.

Infelizmente no Brasil o futebol está num pedestal muito acima de qualquer outra modalidade esportiva. É, depois de cinco títulos mundiais, o suprassumo da nossa existência, mesmo a daqueles torcedores esporádicos, confusos se a camisa amarela serve pra torcer ou pra fazer protesto. Eu vi, com esses olhos que a terra a de comer, ao vivo e a cores, das arquibancadas do Mané Garrincha um time medíocre que passou a condição de mais ou menos para conquistar a medalha, em meio a uma competição de equipes limitadas e muitas vezes, pouco ou nada interessadas. Obrigação, sim senhor e ponto.

Que me desculpem os discordantes, ou os seguidores de Galvão Bueno e/ou Neymar, mas por um segundo desejei que o atual 10 brasileiro repetisse o feito do 10 italiano de 22 anos atrás. Não por não querer ou torcer pelo ouro, mas pelo endeusamento do ídolo e consequente continuidade sem fim da idiotização da massa. Desejei o fim dos jogos olímpicos no mesmo instante que a bola encontrou as redes e o “menino” comemorou aos prantos. Queria me enroscar nas proezas de Phelps, Bolt, Wu, Zaneti, Hipólito, Isaquias. Que acabasse de uma vez ou alguém me beliscasse, e talvez, não acordasse em tempo de ver a história de duas décadas atrás ter outro final.

A propósito, pobre Maicon, bronze no taekwondo, verdadeiro herói olímpico, ofuscado pelo futebol milionário, mimado, arrogante que deseja que nós, brasileiros e torcedores o engulamos. Menos mal que o ditado não falha e o dia depois do outro nos foi capaz da mais bela última surpresa possível com a coroação do filho da Dona Didi.

Não precisamos engolir o moleque mimado e arrogante.

Existe controle remoto para evitar o Galvão.

E, Serginho, obrigado, obrigado e obrigado.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.