Músico barreirense prepara série de álbuns conceituais inspirados nos elementos da natureza

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Muito se fala sobre o prazer de vivenciar uma experiência até que ela se torne um hábito ou mesmo, lembrança de um tempo que gostaríamos de guardar para sempre em nossos corações e mentes. Pode parecer utópico, mas até pouco tempo experimentava-se o prazer — isso mesmo — de se ouvir um disco de uma hora ou mais, na íntegra, folheando o encarte do CD, acompanhando as letras das músicas, analisando cada detalhe da capa, a ficha-técnica e os agradecimentos dos músicos, escritos em letras tão pequenas que quase se precisava de uma lupa para conseguir ler, normalmente, na última página do livreto.

Na contramão da lógica atual que se pauta na instantaneidade, o músico barreirense Luciano Renan está prestes a lançar um desses discos que necessitam ser experimentados com o encarte em mãos e num aparelho de som capaz de traduzir toda grandiosidade da sua obra. Primeiro, de uma série de cinco discos conceituais inspirados nos elementos da natureza, “Aurora” — com previsão de lançamento em todas plataformas digitais e no bom e velho compact disc nesse mês de agosto — é uma ode à música brasileira, sem, claro, se privar do flerte com a música clássica e até com o Iron Maiden, como na fantástica “O Pássaro e o Labirinto”.

“Minhas influências musicais são diversas e penso que nada é descartável”, esmiúça, sem desprezar as diferentes fases da vida e as influências que moldaram cada uma delas. Aos 15 anos, Luciano começou sua trajetória na música tocando em bandas de heavy metal no oeste baiano. Mudou-se para São Paulo quando tinha 17 e desde então vem aprimorando sua técnica e estilo e, de certo modo, moldando o artista completo tatuado em cada acorde desse primeiro trabalho.

“O início foi bem difícil porque era preciso conseguir desapegar de coisas que deixei na minha cidade e criar tudo isso num cenário novo: amigos, família, namorada, rotina”, lembra. “Quando cheguei em São Paulo vi que tinha muita coisa para aprender, minha cabeça ainda estava muito fechada e foi com base nas minhas experiências, estudos, vivências durante esses anos que pude me tornar o que sou hoje”, comenta o multi-instrumentista, grato pelas dificuldades vividas, pois, de acordo com ele, somente através delas foi possível evoluir.

Composto de 16 canções, sendo quatro delas instrumentais, Aurora propõe uma série de reflexões sobre a vida, seja por meio de metáforas, fábulas ou mensagens que tentam dialogar com questões do mundo contemporâneo e outras, internas do ser humano que busca encontrar seu caminho interior. “Para escrever as letras eu fui para um retiro nas montanhas. Lá fiquei absorvendo as energias do lugar, sempre sentado no chão, na grama. Escrevi metade do disco lá, quando voltei, continuei o processo em parques aqui de São Paulo”, esclarece Luciano, que já tem um esboço de todos demais quatro álbuns do projeto (Água, Fogo, Ar e Éter). “Para o segundo (Água) o conceito está todo ele desenvolvido, mas só vou trabalhar a fundo cada um deles quando for seu momento”, completa.

Por se tratar de um trabalho tão amplo, soa quase como uma incoerência eleger apenas um ou outro destaque individual no disco. A faixa de abertura e que dá nome ao disco possui alguns elementos de trilha sonora e introduz brilhantemente o ouvinte na viagem que a obra propõe. Na sequência, “A Semente” mergulha no universo interiorano de um Brasil continental e de riquezas paradoxais, enquanto que “A Flor” nos convida a fechar os olhos e apreciar seus pouco mais de dois minutos, sempre com a certeza que a experiência que o disco promove vale cada segundo. Na quarta canção do trabalho, “O Homem e o Mundo”, é impossível não lembrar do grande Milton Nascimento, nesse que talvez seja o mais grandioso momento do disco (ao menos para esse jornalista, escritor e apaixonado pela arte que vos escreve). A propósito, ela foi a escolhida para o primeiro vídeo clipe de Aurora, ainda sem data de estreia.

Quem conheceu o Luciano Renan nos tempos de Barreiras, ainda que não vá encontrar nenhum riff ou solo de guitarra ao longo dos mais de sessenta e seis minutos de audição, além da quase homenagem acústica ao Iron Maiden em “O Pássaro e o Labirinto”, certamente, verá com bons olhos e ouvidos o quanto o Angra, em especial da época do atemporal Holy Land fez escola, vide as precisas “O Olho Cruel e o Sorriso”, “O Carvalho Azul” e “Ocaso (Yin)”.

OBRA ATEMPORAL E SHOW CONCEITUAL

Avesso aos modismos que tanto incham o mundo da música nos dias de hoje, Luciano aposta no longo prazo, como diferencial para sua arte. “Existe sim uma saturação de produtos da mídia que atingem um grande público, mas essas coisas são realmente passageiras. Eu estou pensando em algo mais duradouro e que possa trazer uma contribuição maior para o mundo tanto na parte musical em si, quanto visual e trabalhando em cima de um conceito que aborda temas importantes que precisam ser falados”, avalia, para deleite de todo e qualquer apreciador de boa música.

Para o futuro próximo, a proposta é montar um show conceitual e apresentar Aurora na íntegra. “Quero fazer algo completo, com projeção, desenho de luz, cenografia, ter toda uma ambientação criada para o público ter uma experiência de imersão. A influência para isso é algo nos moldes do The Wall (Pink Floyd), claro com suas devidas proporções”, diz. Feito isso, a ideia de acordo com Luciano é conseguir levar o show para a maior quantidade de cidades possíveis. “Com a abertura do SESC em Barreiras será uma ótima oportunidade de conseguir levar o show para a região oeste”, avalia.

Grosso modo, “Aurora” é um disco maduro e que, certamente, faz jus à rica história cultural e artística de Barreiras como nascedouro de grandes talentos. O trabalho de Luciano Renan é, sem sombra de dúvidas, merecedor de todo reconhecimento e aplausos, pois, parafraseando uma das estrofes de “O Simples”: “é nas coisas simples que a felicidade está”. Mais: que ouvir um disco conceitual como este pode ao mesmo tempo se traduzir numa experiência simples, mas, de pleno regozijo. “Quando você é autêntico e sincero naquilo que se propõe a apresentar, as pessoas vão sentir isso”, decreta, sem antes revelar que o título do disco presta também homenagem, primeiro, a tetravó, Aurora, e depois ao tataravô Antônio Aurora. Além do mais, em um sentido figurado o termo representa as primeiras manifestações de qualquer coisa, o princípio. “Como é o meu primeiro álbum, minhas primeiras manifestações, achei que o nome encaixou como uma luva”, finaliza.

Para mais informações sobre o trabalho do músico Luciano Renan:

Site: www.lucianorenan.com.br
Facebook e Instagram: @luciano.renan
Youtube: LucianoRenanOfficial

 

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.