MULHERES: SOMOS TODAS HISTÉRICAS!

Artigo de estreia para o Blog da Immagine… que difícil escolher um tema. Tenho diversos assuntos para compartilhar com vocês, aliás será um desafio prazeroso, mas escolher UM para iniciar é o mais difícil. Mas como é preciso, vamos lá: falar sobre mulheres numa perspectiva feminista, mais precisamente sobre um comportamento dito feminino. Eis a minha escolha, espero que gostem.

Inicialmente quero deixar transparente que, para mim, coisa de mulher e coisa de homem, comportamento de mulher e comportamento de homem, roupa de mulher e roupa de homem, profissão de mulher e profissão de homem constitui-se uma construção social, portanto, passível de mudança.

No entanto, apesar de todas as mudanças que estão lentamente ocorrendo, de maneira mais explícita desde a década de 60, com a sistematização dos estudos sobre gênero e feminismo nos Estados Unidos, França, Inglaterra e Brasil – o que acaba por repercutir na vida prática, haja vista que teoria e prática estão intrinsecamente ligadas – algumas questões permanecem pouco imutáveis.

Histerica 2

Frequentemente permeia a minha linha do tempo do Facebook textos feministas sobre diversas situações, inclusive sobre o comportamento feminino. Reflexões bastante interessantes que, no final das contas, concluem que não importa o que façamos, se fizermos algo fora do padrão determinado para o ser mulher em nossa sociedade atual seremos condenadas.

Somado a isso, conversava com uma amiga que terminou um relacionamento e recebeu o “carinhoso” adjetivo dito à milhares e milhares de mulheres: histérica! Quem nunca foi chamada de histérica? Só quem se submete dentro de todas as regras (im)postas. Histeria está ligada a exagero de emoções, sentimentos, expressões e está historicamente relacionada a quem? Acertou quem disse: às mulheres!

Fazendo uma busca rápida e pouco acadêmica no Google, a Wikipédia nos informa a origem do termo, do grego hystera, “que se referia a uma suposta condição médica peculiar às mulheres, causada por perturbações no útero”. Foi um equívoco da Grécia antiga, que repercute ainda em nossos dias. Também associamos logo a Freud, que estudou a histeria em uma paciente mulher, chamada de Ana O.

A histeria é um tipo de neurose, historicamente associada ao comportamento feminino. Essa palavra, bastante conhecida nas origens da psicanálise, não é mais sequer utilizada nos meios psiquiátricos por causa da dificuldade de diagnóstico e da carga de preconceito e estigma que possui. É o que disseram as minhas pesquisas.

imagem histeria

Por curiosidade, busco o significado de histérica no Aurélio: 1 Mulher que padece de histerismo; 2 Mulher caprichosa. Sigo curiosamente e busco histericO: 1 Relativo a histeria ou a histerismo; 2 Que ou aquele que padece de histeria; 3 Que ou aquele que revela desequilíbrio, grande perturbação ou excitação incontrolável. Percebem o machismo? A sutileza entre o histérica e histérico?

Retirando o gênero feminino ou masculino e buscando “histeria”, temos: 1 Doença nervosa, geralmente com manifestação de sintomas como convulsões, contraturas ou paralisias, antigamente associada às mulheres; 2 Tipo de comportamento com grande, intensa ou ruidosa manifestação de emoção; 3 Índole caprichosa. E novamente lhes pergunto: percebem o machismo? Será que era antigamente associada à mulheres ou está fortemente presente em nosso tempo?

Para perceber o machismo, é preciso saber que machismo é o que inferioriza as mulheres, e chamar nós, mulheres, de histéricas, atribuindo-nos tal adjetivo e comportamento é extremamente machista.

Não satisfeita, digito o termo na busca de imagens do Google. Tanto faz escrever histérica, histérico ou histeria, pois a predominância das imagens que aparecem são de mulheres! Histeria é exagero. Pessoas histéricas são pessoas sem controle e a característica de emotividade está como padrão feminino, logo, ser histérica é encarado socialmente como algo inato às mulheres. Será? Não mesmo.

Mas, se até para a medicina o termo está em desuso, por que ele permanece tão atual e constantemente utilizado? Porque histeria é exagero e o exagero é um atributo de comportamento socialmente dado às mulheres. É uma forma de rebaixar o que fazemos e o que dizemos. É uma forma de nos fazer sentir inferior ou envergonhada de nossos sentimentos e ações. Mais do que isso, é uma forma de caracterizar toda e qualquer mulher que ouse dizer o que não é permitido socialmente à uma mulher, que ouse fazer o que não é permitido socialmente à uma mulher e que ouse questionar o machismo social e sobretudo dos homens. Fazendo isso seremos tachadas de histéricas sem qualquer dúvida.