Mil vivas para o fazedor de malabares

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Mil vivas para o fazedor de malabares

Minhas melhores viagens de trem são aquelas em que algo aparentemente inusitado acontece. Não é sempre, mas acontece. Sabe, quando há um rompimento com a mesmice. Porque andar de trem é enamorar-se da mesmice, ás vezes de uma pasmaceira de dar dó.

Eu, por exemplo, nunca tinha visto alguém fazer malabares dentro de um trem.

Estava lendo um livrinho de contos do Moacyr Scliar quando aconteceu. Interrompi a leitura e observei.

Fazer malabares dentro do vagão de um trem em movimento não é para qualquer um.

Percebi que o malabarista/artista possuía uma técnica própria para manter o equilíbrio. Foquei nos pés. O segredo estava nos pés. Por meio de curtos pulinhos o malabarista mantinha o equilíbrio e conseguia jogar as bolinhas coloridas para cima (com cuidado para não acertar o teto do vagão e comprometer o show).

Cogitei aplaudir, afinal, estava diante de um artista.

Varri minha bolsa atrás de algumas moedas. Assoviei. O malabarista/artista já ia no sentido contrário. Alguém o interceptou, apontou na minha direção. Abanei, sorridente. Pensei que talvez fosse argentino. A maioria esmagadora dos fazedores de malabares com quem tive contato são argentinos. Impressionante. Não era o caso.

Sempre — sempre, mesmo — separo algumas moedas para os artistas de rua.

Esses dias um adolescente arriscava uma canção autoral ao violão na entrada/saída da estação. Depositei uns setenta e cinco centavos no chapeuzinho dele. Toda vez que paro no sinal e vejo fazedores de malabares, abaixo o vidro, aplaudo e dou umas moedas. Até um cuspidor de fogo já encontrei no sinal. Sensacional. Argentino ele, só podia.

Quando o malabarista/artista do trem voltou, de um dos bolsos, sacou um pedaço de cartolina azul, dobrado para dar impressão de folheto — talvez seja este o intento e ele apenas não tenha dinheiro para levar o seu à gráfica.

Haviam três mensagens no pedaço de cartolina/folheto do fazedor de malabares que não é argentino:

Primeira: Pratique exercícios

Segunda: A pasciência (sic!) é a chave da vitória — e, um pouco abaixo — Saúde

Terceira: Uma ajuda para comprar comida! Grato.

Guardei o pedaço de cartolina/folheto, não consegui retomar a leitura do Scliar. Não pratico exercícios desde minhas saudosas aulas de boxe. Sou um contraventor. Transgressor. Vá lá. Lamentei e só, o erro de português. A essência da frase/mensagem faz todo sentido, embora, acrescentaria que o ideal é jamais exagerar. Paciência em exagero não é saudável. Nada em exagero o é, quem dera essa “madame” tão em falta nos dias de hoje.

Algumas estações a frente, o fazedor de malabares saltou do trem.

Antes carregava um bebê no colo e tricotava com a mãe da criança, provável — dedução minha — sobre as delícias da maternidade e paternidade (caso dele). Voltei-me para o pedaço de cartolina/folheto, notei que os pingos dos is eram feitos em formato de coração e havia uma carinha sorridente desenhada numa das bordas. Um filho (a), talvez?

Mais: artista.

Vou aderir:

Pratique exercícios.

Mas, jamais esqueça de exercitar também a mente, o cérebro, o coração. Leia mais.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.