Medo

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Nascemos com três medos ancestrais. Esses medos fazem parte da nossa configuração instintiva e, por terem sido cruciais para a sobrevivência dos nossos ancestrais pré-Homo Sapiens nos foram legados. Medo e sobrevivência têm uma íntima ligação. Quando sentimos medo, as pupilas dilatam, a adrenalina faz acelerar o coração, os músculos se preparam para uma possível luta ou fuga. O medo dispara um sinal vermelho que nos coloca em estado de alerta. Isso tudo para que? Garantir a sobrevivência! O medo nos impele a lutar pela vida ou fugir para preservá-la.

Nascemos com medo de insetos e animais peçonhentos. Curiosamente é só ver uma cobra que a gente sabe: Não ponha a mão! Parece que nossos antepassados descobriram o perigo desses animais da pior forma possível através do método ‘tentativa e erro’, com a ressalva de que os corajosos não sobreviveram. Por isso, inculcado está na nossa mente que ao ver um animal desconhecido ou com características reptilíneas devemos sair de perto!

Nascemos com medo de altura. Subir um monte bem alto para ver o horizonte é algo incrível, mas o medo nos faz ter percepção de que não se deve chegar perto da borda de um precipício, pois a queda pode ser fatal. Esse medo também se desdobra na profundidade de um rio, lago ou mar. O medo da água é na verdade o medo de “não dar pé”, portanto, é medo de altura, é medo de ser tragado pelas profundezas da água. Na corrida da sobrevivência ancestral, permaneceram vivos os que permaneceram com os pés bem firmes no chão.

Nascemos com medo de escuro. A maioria das crianças cultiva esse medo e alguns adultos também. Não é o escuro que causa o medo propriamente dito, mas sim o que a escuridão pode ocultar. Desde fantasmas e monstros da nossa imaginação, até assaltantes e perigos bem concretos. A escuridão preservava nossos ancestrais de sair à noite para caçar e, talvez, cair de algum precipício ou ser atacado por algum animal perigoso. O medo de caminhar por onde não se vê nos tornou (antes da existência de luz elétrica) em seres de hábitos diurnos.

Nascemos com medos ancestrais, mas simultaneamente, nascemos com um desejo ardente de vencê-los. Há que se perceber a linha tênue entre a preservação e a prisão que os medos podem gerar. Um medo não pode nos tirar o prazer e a alegria da vida. Um medo não pode cercear a nossa capacidade de racionalizar e descobrir meios de superar o que nos paralisa. Isso tudo porque vencer os medos é uma das formas mais genuínas de lutar por uma vida mais ousada. Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1993, disse: “Aprendi que a coragem não é a ausência do medo, mas o triunfo sobre ele. A pessoa corajosa não é aquela que não sente medo, mas a que conquista esse medo”.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.