Limpe seus peixes

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Um pescador quando pega um peixe precisa, logo, colocá-lo sobre uma bancada a fim de retirar vísceras e escamas. Se deixar acumular a pescaria de hoje com a de amanhã e assim por diante, provável que o cheiro fétido de peixe estragado fique tão, mas tão impregnado no ambiente que já não será possível distinguir o que é perfume e o que é carniça, o que é bom e ruim, certo e errado, limpo e sujo.

Empertigado pelo odor de peixe acumulado, sinto-me na obrigação de confessar.

Primeiro: já fui leitor de livros de autoajuda;

Segundo: um desses livros me ensinou que não devemos exagerar na dedicação dada a situações que gerem arrependimento.

O verbo arrepender, aliás, bem poderia virar exclusividade das religiões, para quem é sempre e todo santo dia necessário arrepender-se dos pecados e etecetera e tal. De resto, o ideal seria que jamais tivéssemos de conjugá-lo.

Repito: jamais.

A mensagem fisgada no livro de autoajuda não tem outra razão de ser que não a de evitarmos — a todo custo — fazer dos arrependimentos rotina e pauta constante de nossas vidas.

A lógica é simples: aprender com os erros.

Todos sabemos disso. É regra elementar, embora, pareça tarefa absurda de pôr em prática.

Alimentar situações passadas como a um monstrinho que se mantém aprisionado no sótão é não se dar a chance de seguir em frente.

Daí da necessidade em se limpar o peixe.

Se transformarmos cada situação de arrependimento em mais um peixe ignorado fora do congelador faremos do nosso entorno um borrão, um constante andar em círculos sem eira nem beira ou destino certo.

Pior: um profanador de bizarrices do tipo “se arrependimento matasse”.

Nos áureos tempos em que usava um elástico na cabeça igual o atacante argentino e carrasco brasileiro da Copa de 1990, Claudio Paul Canniggia, uma garota, três anos mais jovem, apareceu como um furacão no colégio que eu estudava.

Cláudia, o nome dela.

Na primeira semana os pais foram chamados porque colegas e professores haviam encontrado cigarro nas coisas dela e ela poderia ser má influência. Foi um fuzuê.

Uma tarde ela ligou para o fixo lá de casa — sabia que ela era, embora ela não tenha se identificado:

— Oi gato, tô a fim de ti.

Depois, desligou.

A gente se esbarrou nos corredores do colégio algumas vezes. Eu cansei de tentar ser o Caniggia, ela virou hippie e nossas vidas tomaram rumos distintos. Não faço ideia do que poderia ter acontecido se tivesse sido de outro jeito. Eu poderia ter virado hippie também. Sei lá. É estranho pensar nisso tantos anos depois. A Cláudia é tipo aquele peixe que a gente ignora e quando se dá conta já empertigou o ambiente com cheiro podre.

Por isso, se valer a sugestão: limpe seus peixes.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.