Largatos: a quase primeira banda de rock de LEM

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Em 1999 os aproximados 18 mil habitantes — talvez, nem isso — do povoado recém rebatizado de Luís Eduardo Magalhães guardava certa dúvida sobre o que a mudança de nome viria a representar num curto espaço de tempo. O processo que culminaria com a emancipação encontrava-se num momento crucial. O então novo distrito precisava provar que tinha condições de seguir independente de Barreiras. Enquanto o processo de convencimento de ACM seguia seu curso em Salvador e Brasília — a emancipação só se consolidaria no ano seguinte — na esquina da Rua Paraíba com a Avenida JK era instalada a Fibracan, empresa especializada em consertos em fibra de vidro e que viria a se tornar o “quartel general” de dois irmãos (opa, o mais velho deles, este que vos escreve) na faixa dos 17 e 20 anos, oriundos do interior do Rio Grande do Sul.

No afã de ter o que fazer como diversão decidimos montar a própria banda. Uma viagem à Brasília foi suficiente para aquisição dos instrumentos que faltavam: uma bateria e um contrabaixo. A guitarra tinha vindo junto no porta malas do velho e saudoso Fiat Prêmio. A espinha dorsal do grupo ficou em família, eu na bateria; meu irmão, Saymond, na guitarra e vocais e nosso primo, Guto, ou, Gutão, no contrabaixo. É preciso destacar que nossa experiência remota com a música tinha duas vertentes: uma bandinha de garagem de heavy metal que tivemos no auge da adolescência, no meu caso, como vocalista; e uma possível herança genética, oriunda do nosso avô, experiente músico de baile que, entre outras peculiaridades tocava um contrabaixo amarelo sem trastes e animava qualquer roda de amigos, ou não, com sua gaitinha de boca.

Assim, com parca experiência e técnica, a Largatos fez seus primeiros ensaios.

 

A barulheira chamou atenção — claro, ensaiávamos de porta e janela aberta. Em pouco tempo, nossas tentativas de produzir música transformaram-se em pequenos eventos, com muita gente espiando da porta ou da janela do escritório da Fibracan, entre eles, os primeiros fãs, jovens que, como nós, ansiavam por algum tipo de lazer que o distrito não oferecia. Não tardou para o primeiro acréscimo na formação da banda acontecer. Fabinho (que depois veio a fundar a Unidade 8), assumiu a segunda guitarra, transformando a banda num quarteto. A essa altura, o repertório da Largatos era um misto de versões de clássicos do rock nacional, os primeiros esboços de canções autorais, entre elas “Vendaval”, “Poeta Medíocre”, “Bibêlo”, “Quatro Olhos” e “Caos Social Injetável”, além de trechos de músicas de bandas gringas como Black Sabbath — o solo de “Bibêlo” era descaradamente parte do solo de “Iron Man”, The Doors, Led Zeppelin, Beatles, etecetera.

Quando a banda chegou a três, quatro meses ensaiando as mesmíssimas versões muitas vezes aproveitando o horário de almoço, a vontade e o desejo de fazer o primeiro show — não necessariamente nessa ordem — fez a banda, pela primeira vez, colocar os instrumentos do lado de fora e ensaiar abertamente, tornando visível e convidativa a aproximação de mais e mais curiosos. Como um evento teste, queríamos ver como as coisas soariam, talvez, sentir se estávamos ou não prontos para um show de verdade. Acontece que locais para apresentações musicais, à época, eram — imagine Luís Eduardo Magalhães há quase vinte anos atrás — escassos e muitas vezes, só a boa vontade alheia poderia tornar algo do tipo possível.

O centro da nova cidade girava em torno da Igreja Matriz e da Associação dos Moradores do Mimoso do Oeste (AMMO), onde praticamente todas as festas, almoços, confraternizações, bailes de debutantes e velórios aconteciam. Numa dessas festas, a Largatos foi convidada para seu primeiro show, como atração secundária da atração principal da noite, a banda de pagode Os Bocas, de Barreiras. Apesar de uma passagem de som desastrosa — inexperiente, sofri para adequar o kit da bateria ao meu tamanho e jeito de tocar — o anúncio de que a atração principal faria um intervalo no seu show fez com as atenções se voltassem para nós. Até poucos meses antes, eu nunca tinha tocado bateria na vida. Apostava no feeling, na lógica do bumbo ditar o ritmo e precisar ser tocado antes da caixa. 

Lembro que numa rápida reunião antes de irmos para o show — decidimos fazer o trajeto entre a Fibracan e a AMMO a pé — sugeri começar com uma espécie de grito de guerra, que acabou se tornando marca registrada de todas apresentações seguintes da Largatos. Não queríamos apenas plugar os instrumentos e começar a tocar o nosso set list, o grito de guerra soaria como uma injeção de adrenalina para que a gente começasse (entre aspas) aquecidos. Prontos. Assim, numa madrugada qualquer do ano em que o mundo não acabou como queriam as profecias, do fundo do palco cimentado da AMMO, sentado na banqueta da bateria, gritei a pleno pulmão os primeiros…

 

Largatos, preparados!

Após as tradicionais três contagens com a baqueta demos início ao show. Quem era presença constante nos nossos ensaios foi para a frente do palco, quem não era — de certo modo — abriu espaço no meio do salão para as rodas que se abriram. O palco cimentado de pouco mais de meio metro de altura não foi empecilho para os moshes. Aliás, quisera tivéssemos sido um pouco mais sistemáticos e contado quantas vezes aquele palco recebeu moshes no auge das festas e shows lá realizados.  As quinze músicas que fizeram parte daquele set, provável tenham aberto a chancela e preparado terreno para todo frenesi dos anos seguintes. Das que minha memória consegue lembrar, além das autorais, aquele set contou com versões para “Eu Nasci Há Dez Mil Anos” e “Canceriano Sem Lar” de Raul; “Eu Sei”, da Legião Urbana, “Malandragem”, chupada da versão da Cássia Eller, entre outras. Terminamos, sob ovação. Mantivemos a rotina de ensaios e, principalmente, de composição. Em pouco tempo, o repertório da banda passou a contar, em sua maioria, com músicas autorais como as novas “Garotos Selvagens”, “Leve Desespero” e talvez a melhor de todas, “Castigo”, que infelizmente não teve nenhum registro de áudio ou vídeo.

O segundo show oficial da Largatos, novamente na AMMO, teve como cenário uma festa de gosto duvidoso, em que o palco foi transformado numa selva e entre as atrações musicais (nós e um cantor chamado Tony Moreno) garotas desfilavam de biquíni e com camisetas molhadas. Literalmente, tocamos quase que camuflados entre samambaias. O piso do palco estava encharcado e o risco de choque era iminente. Terminamos o show aliviados. Nenhum de nós foi eletrocutado, ou morreu, ou se transformou num mártir.

 

MUDANÇAS E MAIS SHOWS

As mudanças de formação foram várias. A primeira delas, a saída de Fabinho que deu lugar ao saudoso Fio (que hoje olha por nós do outro lado), que além de violão e guitarra fazia os vocais de apoio e até baixo tocou na banda, quando da saída do Gutão. Outros que integraram a Largatos até o encerramento das suas atividades foram Rogers, no baixo, e Michel, teclado e violão.

Entre 2000 e 2004 fizemos algumas apresentações nos Domingos Culturais na Praça Matriz, com destaque para a vez em que o pedestal de um dos pratos da bateria despencou durante a execução de “Rock n´Roll” do Led Zeppellin. Em 2001, no Agribusiness Center, dividimos palco com uma banda cover do Creedence Clearwater Revival, vinda de Brasília, num dos shows mais marcantes dos primórdios da jovem Luís Eduardo Magalhães. Em 2002, numa das primeiras edições da Festa da Colheita — onde hoje estão a Câmara de Vereadores e o Fórum — um bêbado Fio, mandou abraço para os seguranças que eram quase maioria. Fomos obrigados a começar muito cedo, antes mesmo das 23h e por isso, a não ser nossos fiéis seguidores apenas os seguranças testemunharam o show. Infelizmente, a banda fez uma única apresentação em Barreiras, no Cais e Porto, num show de pouco mais de vinte músicas e totalmente acústico.

 

O QG DA GALERA E A ORIGEM DO CHÁ DAS CINCO

Em dado momento, a Fibracan transformou-se em atração e ponto de encontro. Uma espécie de QG da galera rock de LEM. Tanto que virou rotina colocarmos os instrumentos do lado de fora quase todos fins de semana. O público era cativo, um mini ramp de skate era atração e um freezer recebia o pagamento para participar do festerê: uma caixinha de cerveja ou o que fosse beber. Aqueles ensaios abertos deram origem ao Chá das Cinco, o clássico e inesquecível festival que anos mais tarde teve edições repaginadas e com presença de bandas até de outros estados, caso da Identidade em 2015 e uma, com direito a homenagem ao nosso pai, Aaron, que nunca pôs empecilho algum para todas maluquices que fazíamos, transformando-se num tiozão e as vezes até num segundo pai para muitos que preferiam passar o tempo na Fibracan. A Largatos não resistiu ao tempo. O sonho de furar a bolha e tornar todas aquelas canções conhecidas do grande público não vingou. O projeto de gravação do primeiro CD fracassou e o fim, acabou sendo o caminho inevitável.

 

AS CRIAS DA LARGATOS

Curiosamente, a Largatos deu origem a duas bandas que marcaram época em LEM: a Lobos da Estepe, formada pelos ex-integrantes dos Químicos com meu irmão no vocal e guitarra e a Unidade 8, a qual tive a honra de fazer parte da formação original que gravou o “Fobia” em 2004 e talvez tenha sido a banda local que mais perto de furar a tal bolha chegou. No entanto, estas são história para outra oportunidade. Uma das últimas aparições da Largatos se deu no I Encontro de Bandas de Rock, realizado na quadra de areia da AMMO, numa época que a cidade chegou a contar com pelo menos seis bandas ativas e o mais importante, parceiras em todos sentidos. A formação daquele show contou com Adilson Vieceli, integrante da Falso Sepulcro — a verdadeira primeira banda de rock do então povoado de Mimoso do Oeste, isso lá nos idos de 1996 e 1998. Histórico e daí do “quase” usado no título. No berço da Largatos foi construído um estúdio que ajudou muitas bandas na primeira metade dos anos 2000 e onde hoje bandas de toda região se apresentam, pois, é justamente onde está o palco do Chá das Cinco Pub. Na minha recente passagem por LEM, talvez, devia ter feito o teste, pois, quem sabe, ao encostar o ouvido no piso do pub ainda seja possível ouvir o velho grito de guerra da Largatos ecoar.

Preparados?

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.