Laranjas

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Tom Jobim ao compor “Wave” nos provoca dizendo que “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”. Dou o braço a torcer. Somos seres relacionais, portanto em maior ou menor grau carecemos de um círculo de amizade. Não creio que alguém viva e se baste por si mesmo. Em contrapartida, não creio que necessariamente um relacionamento amoroso seja tão fundamental assim. Amor do tipo ‘fundamental’ pode ser nutrido pelos pais, pelos amigos, pelo trabalho, pelo ‘pet’ e também, se assim for do desejo pessoal, por um namorado, namorada ou cônjuge.

Acredito no amor e na possibilidade de construir um relacionamento, desde que os envolvidos na questão tenham saúde mental e psicológica para perceber que estão num relacionamento para aperfeiçoar-se a si mesmos. Relacionar-se mais intimamente com outra pessoa oferece uma possibilidade de autoconhecimento ímpar. Por isso é tão importante aprender a ver o amor como algo que nos complementa e tenta na melhor das hipóteses nos tornar pessoas melhores.

Deveríamos buscar um amor que nos complementasse e não que nos completasse. Complementar e completar são verbos bastante distintos. O primeiro carrega o sentido de sentir-se íntegro, porém com a necessidade consciente de desejar alguém do lado para compartilhar a vida. O segundo evidencia um estado de assumir-se incompleto e desejar o pedaço que falta.

Talvez esse seja o erro: Não somos a metade de uma laranja que carece ser completada. Somos uma laranja inteira que precisa de outra laranja para fazer companhia – e isso é questão de escolha, pois uma laranja pode muito bem querer ficar sozinha no seu pomar. Complementaridade talvez seja uma das principais características a serem desenvolvidas por casais que desejam viver bons e longos anos lado a lado.

Enquanto seguirmos nessa sede incontrolada de buscar uma metade que teoricamente não nos falta, sentiremos eternamente que nos falta algo ou alguém. Essa é a tragédia anunciada de tantas pessoas que migram de relacionamento em relacionamento… Buscam nos outros um pedaço que não pode ser oferecido. Há que se aceitar a pessoa amada como laranja inteira com sua casca, com seu azedume e claro, com sua doçura. É preciso de igual forma aceitar-se como laranja inteira. Por hora, ainda canto junto com Tom… Mas não venha me dizer que sou metade de laranja ou tampa de panela!

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.