Hospitalidade

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Alertaram-me, antes de mudar-me para a região serrana do Rio de Janeiro, que não estranhasse o fato dos habitantes locais serem “fechados” e “frios”. Confesso que me assustei um pouco, mas costumo não dar ouvidos ao que o senso comum diz. Rubem Alves dizia – e eu reitero – que a voz do povo não é a voz de Deus, uma vez que o povo costuma ser um tanto quanto rude e precipitado nas avaliações de outrem. Para minha alegria, contando raríssimas exceções, sinto um ar de hospitalidade por aqui.

A palavra “hospitalidade” teria aparecido pela primeira vez na Europa, provavelmente no início do século XIII, calcada na palavra latina Hospitalis. Ela designava a hospedagem gratuita e atitude caridosa oferecida aos pobres, viajantes e estrangeiros. O termo grego traduzido em português por “hospitalidade” é philoxenia, uma combinação de duas palavras: philos, que significa “amar alguém como a um amigo ou irmão”, e xenos, que significa estrangeiro ou imigrante. Embora geralmente traduzida por “hospitalidade”, a philoxenia significa de forma mais apropriada “amar o outro como se fosse o seu próprio amigo ou irmão”.

Não consigo crer na existência de um bem estar social coletivo que não passe pelo acolhimento altruísta. Nunca é tarde para resgatar o significado de “altruísmo”: ausência de egoísmo. Esse senso de coletividade deveria ser trazido à memória constantemente. Estamos todos e todas interligados – o que não exclui as diferenças.

Diante da tecnologia desenfreada que isola as pessoas em bolhas digitais, corremos constantemente o risco do isolamento e da apatia. Além disso, o clima de polarização que vem crescendo em todos os âmbitos, sobretudo na política, e também a intolerância que como metástase tem se alastrado rapidamente pelas redes sociais, põe em estado de fragilidade o dom da hospitalidade. Menos debates vazios, menos discurso de ódio e mais sugestões propositivas e ações pró-ativas. Menos julgamentos, mais postura empática. Não podemos subestimar jamais que as palavras e ações a nível pessoal têm poder de influenciar o coletivo.

Lembro-me de uma fábula bastante conhecida da qual não recordo a autoria. A fábula é sobre dois viajantes e um velho sábio que recepciona visitantes no portal de uma pequena cidade, enquanto que seu discípulo observa a cena. Ambos os viajantes perguntam ao sábio: ‘como é a cidade?’ Para ambos os viajantes, o sábio pergunta: ‘como era a cidade de onde vieste?’ O primeiro viajante responde que a cidade da qual vem é horrível, sem oportunidades, onde as pessoas são rudes e por estes motivos está atrás de uma cidade diferente. O segundo viajante responde que a cidade da qual vem é maravilhosa, hospitaleira, com muitas oportunidades e que agora busca novas experiências e novos obstáculos a transpor. A resposta do sábio para os dois viajantes é a mesma: ‘Nossa cidade é exatamente igual a cidade de onde você vem!’.

O primeiro viajante decide seguir caminho, o segundo finca morada. O discípulo então questiona a postura do velho sábio – ele havia dado duas descrições completamente opostas para a mesmíssima cidade. O velho sábio conclui seu raciocínio: ‘Nossa cidade não é diferente de nenhuma outra cidade, todas as cidades têm pessoas rudes e pessoas amáveis, com oportunidades e desafios, o que determina se uma cidade é boa ou ruim é a forma como você enxerga ela. Você carrega sua cidade dentro de você!’.

Não desprezemos o poder da hospitalidade! Uma pessoa bem acolhida sempre volta e, quem sabe, até fica. Aos que ainda tem dúvidas sobre como ser mais hospitaleiro, a “regra” é bem simples: Acolha o próximo, como você gostaria de ser acolhido – “ama o outro como se fosse o seu próprio amigo ou irmão”.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.