Eu, 60 mil manés e 22 pernas de pau no Mané

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No trajeto entre o local em que estacionei meu carro e o Estádio Mané Garrincha, no início da noite do último domingo, 07 de agosto, conclui que é chegada a hora de parar de ir sozinho para qualquer evento, seja de esportivo, de entretenimento (música, teatro, cinema) ou etecetera. A rodada dupla de futebol olímpico só não será minha última vez só, pois, em setembro, assistirei – igualmente sozinho – ao Whitesnake de David Coverdale, também em terras candangas. O ingresso, a propósito, já está comprado e devidamente guardado.

Engraçado que àquela altura, enquanto ziguezagueava entre os limitadores e observava o semblante dos demais que pretendiam – como eu – assistir a Seleção do Micale, jamais poderia imaginar o quão desagradável seria aquela noite. Quando comprei o ingresso, nem fiz questão em saber quais seriam os jogos. Minha tenra e inocente intenção era estar presente a um evento olímpico, independente de o Brasil estar ou não na disputa. Também, era impossível prever que essa badalada seleção fosse jogar tão mal quanto jogou até aqui. Aliás, do privilegiado setor que estava, foi ainda mais perceptível a desorganização disso que alguns ainda insistem em chamar de time.

Até a torcida iraquiana, em boa parte concentrada algumas fileiras acima da minha posição, pareceu mais vibrante, e sem dúvidas, mais charmosa. Até quando teve de entregar o instrumento de percussão que conseguiram passar pela rígida organização, ainda que sob protestos de “deixa, deixa, deixa”. Estão de parabéns. São menos forçados, pra dizer o mínimo. Não que eu seja o melhor exemplo de torcedor verde amarelo, mas é notório o peso quase funéreo que a camisa com o slogan da CBF carrega, pós 2013 e tantos panelaços e discursos pregando o fim da corrupção. Nem a bandeira cincada no lado esquerdo do peito de cada um dos 18 foi capaz de sangrar essa áurea negativa. Tudo parece protesto. E nem todos sabem o motivo. A velha camisa canarinho, a bem da verdade, perdeu sua capacidade de envergar varal como outrora. Tornou-se, com algum sucesso, um símbolo da atual situação vivida pelo país, em que temer deixou de ser verbo para ser objeto quase decorativo. Postiço. Provisório. Sei lá.

O máximo que emana das arquibancadas é aquele esdrúxulo cântico de “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. Nada convincente, tanto que nas primeiras tentativas de torna-lo uníssono, o Iraque quase marcou, depois de saída falha do goleiro do Atlético/PR. A bola, lembrar-se-ão aqueles que perderam tempo in loco ou na frente da TV, beijou a trave e por pouco não morreu nas redes brasileiras, tornando a noite de 07 de agosto, tão vexatória quanto aquele final de tarde de dois anos atrás em Belo Horizonte. Por um instante, quis crer que tudo aquilo fizesse parte de algum sarava qualquer que paira sob os ares da capital. Quiçá, culpa do PT.

Aliás, e que fique claro, eu senti vergonha. Por estar lá. Sendo testemunha de tão pífia exibição. De tão insossa representatividade, pois em nada, mas absolutamente nada, este amontoado de jogadores traduz o modorrento cântico citado acima. Impossível sentir qualquer lampejo de orgulho vendo Neymar, Gabriel Jesus, Renato Augusto e companhia em campo. Tanto que os melhores momentos de todos 90 minutos de sofrimento no estádio que carrega o nome do segundo maior de todos os tempos, foram as vozes unidas chamando o nome de “Marta”, líder do escrete feminino. Pobre Mané.

Minha saída do gigante de cimento se deu assim que um bizarro pagante invadiu o gramado para seus segundos de fama, sendo acossado em seguida, primeiro pela turma dos voluntários e posteriormente dos seguranças. Ali, não havia mais o que ver, o que esperar, o que torcer. Saí cabisbaixo, recluso na minha solidão, com oito reais a menos no bolso, investido em uma água mineral de procedência duvidosa, lembrando-me do que havia concluído horas antes. Basta. Melhor, nessas horas de profunda crise existencial, ter com quem desabafar. Abraçar. Chorar. Novamente, sei lá.

O que vi me deixou, por fim, cansado. Triste. Apático. Nostálgico, por ainda conseguir recordar, mesmo que vagamente, a criança que numa bela manhã de sol acordou e mesmo após Romário e companhia perderem o ouro para a extinta União Soviética há quase vinte anos, saiu para o quintal e brincou de jogar futebol, imaginando adversários. Recriando e inventando a história e sendo feliz.

Nem isso esses párias tem conseguido. Nem isso conseguirão. São apenas reflexo deste país cambaleante e sem direção, governado por um interino. Sem voz. Sem atitude. Treinado por um desconhecido que insiste em pedir respeito ao intocável, quando este deveria se desculpar por ser e estar tão pouco.

Por fim, Mané foi quase rei e Manés somos todos nós, herdeiros do 7 a 1.

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De volta

Após um hiato de mais de trinta dias, acertei meu retorno as postagens para o blog. A partir de agora, meus escritos serão publicados quinzenalmente, intercalando crônicas do dia-a-dia, dicas de literatura, cinema e música e outras divagações que valerem a pena publicar.

E-book

Aos participantes da Oficina de Escrita Criativa que ministrei no terceiro MMAD, logo, será publicado o e-book resultado da atividade prática daquela tarde. A capa já está pronta e o material em fase final de edição.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.