Esses humanos feitos de açúcar são chatos pra caramba

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Esperava na parada de ônibus quando um homem de cinquenta, mais ou menos, atravessou a rua. Usava chinelo, camiseta, um calção folgado parecido com um pijama — levantou o short umas duas vezes. Ele segurava um saquinho bem inchado de pipoca de micro-ondas. Devia estar quente, fumegando, os dedos pareciam uma pinça. Ao passar por mim, trocou o saquinho de mão, depois dobrou uma esquina e foi embora. Cinco minutos depois meu ônibus parou, eu entrei e fiz o mesmo.

A primeira frase dessa crônica era para ser outra, tinha até redigido, sem piscar ou olhar para o teclado do notebook, baita exemplo de datilógrafo, porém, o politicamente correto me impediu de prosseguir e por isso apaguei a frase. Não dá mais para brincar com essas coisas. Aliás, com nada. Tudo ficou sério demais, a não ser que você tenha conseguido vencer na vida fazendo stand up comedy ou sendo Youtuber. De resto, sempre tem alguém para não gostar. Reclamar. Escrever textão no Facebook. Não quero que ninguém escreva textão no Facebook para reclamar de uma frase que usei numa crônica.

Esquece.

Não vai rolar.

Sou, parafraseando Renato Russo, um animal sentimental que se apega muito, muito fácil. Ontem, numa dessas noites que tento pôr em prática meus raros conhecimentos de inglês, o debate era justamente sobre como nos comportamos diante de uma crítica. Eu tenho medo delas. Passo mal quando alguém aponta o dedo para o meu nariz, apontando minhas falhas. Nessas horas, sinto como se a vírgula fora do lugar estivesse sob julgamento, num desses telões de cinema, a sala lotada e uma voz semelhante à do Christopher Lee no papel de Saruman prestes a ordenar que um bando de orcs arranque minha cabeça num golpe só.

Preciso aprender a lidar com isso urgente.

Quando alguém não gosta do que outro alguém diz a seu respeito ou a respeito de algo que se defende: uma bandeira, um estilo de vida, talvez o direito de roer as unhas em paz ou optar por uma dieta a base de plantas, e ainda manter os sovacos cabeludos, revida-se. Sob uma estranha certeza de que qualquer coisa é passível de direito de resposta. Todos queremos ser o que bem quisermos e fazer o que bem entendermos, mas, ao mínimo sinal de reprovação ou argumento contrário, é como se nossa matéria prima deixasse de ser a carne e os ossos, para se tornar açúcar. E daí tornamo-nos intocáveis. Pior: insuportáveis.

Alguém sair por aí de pijamas com os dedos em pinça segurando um saquinho de pipoca de micro-ondas fumegante, foge à regra, ao status quo, ao tolerável. E eu, quem a de se opor, sou uma pessoa normalíssima, onde já se viu? A maioria de nós rende graça ao ar condicionado dos carros só para não ter de encarar o argentino que faz malabares no semáforo. Sempre há quem levante o cenho em reprovação ou custe a compreender. Aceitar.

Parece simples, né?

Aceitar.

Só que não é.

Às vezes eu queria ser o homem que atravessa a rua de pijama e com os dedos em pinça segurando um saquinho inchado e fumegante de pipoca de micro-ondas.

Ah, mas esses humanos feitos de açúcar são chatos pra caramba.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.