Essa vida cheia de truques

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Há quem não dispõe do privilégio de um aviso prévio.

Simplesmente, vai e não volta e fica sem a oportunidade de uma despedida, de um acerto de contas, de um pedido de desculpas, de um perdão. O rancor é dos grandes males do ser humano não apenas hoje, mas em toda história. Faz mal e tem fede azedo. Pobre de quem insiste nesse pântano amargo.

Aliás, a vida é cheia de truques e adora nos pregar algumas peças. Eu mesmo, já escrevi algo parecido com isso, salvo engano, publicado em livro. Os truques e as peças simplesmente acontecem, como num piscar de olhos, de um segundo para outro, a mudança pode ser definitiva. O amanhã pode não mais existir.

Há alguns anos, pouco importa precisar com exatidão, protagonizei um leve acidente. Lembro de ter saído do carro ainda trêmulo. Estava com o pensamento longe, com pressa, não passava pela minha cabeça que aquela curva tão inocente poderia ser o que foi. Não me machuquei. Meu carro não virou uma lata velha. Nada disso. Errei no acelerador, o carro derrapou na área, ziguezagueei de um lado a outro e invadi o meio fio como um touro bravo que avança na direção do pobre toureiro. Sem ninguém por perto e nenhum veículo à frente ou às costas. Apenas eu e meu carro.

Desliguei a chave, abri a porta, olhei para os céus e pensei:

 

— Meu Deus, podia ter capotado.

 

Por uma bobagem podia ter ficado sem um novo amanhã.

Volta e meia me imagino preso ao cinto de segurança dando piruetas pelos ares e pouco depois internado em algum hospital, sabe-se lá em que estado de saúde.

Quiçá tivesse tamanha sorte.

Foi um erro, um deslize, uma bobagem, um apagão. Sei lá. Prefiro acreditar que tenha sido um aviso. Como se alguém, do alto de sua sabedoria, tivesse colocado suas mãos nos meus ombros e dito:

 

— Tenha mais calma meu filho!

 

A última semana me coroou com a mesmíssima mensagem. Estamos sempre com tanta pressa e impacientes e irritadiços que nunca nos damos conta de que precisamos dar uma pisada no freio. Maneirar um pouco. Por alguma razão é comum nos darmos conta dos erros ou excessos quando estamos, tão-somente diante do acontecido, imóveis, estáticos, perdidos.

Quando, infelizmente, já é tarde demais para mudar os rumos da nossa própria história.

Talvez se eu tivesse um pouco menos “chutado” e com pressa na vez do acidente, nada do que me aconteceu teria acontecido, e, fatalmente, continuaria a correr e correr e a andar no limite. Igualmente, talvez a última semana não tivesse sido o que foi, se antes, lá atrás, tivesse prestado mais atenção nos detalhes, aqueles quase insignificantes que quase passam desapercebidas.

É por isso e somente por isso que penso nos setes dias que findam nessa quinta-feira como um aviso.

Pense.

Exercite o cérebro.

Quantas coisas guardamos sempre à espera do amanhã, da semana seguinte, do próximo mês, ano ou década? Como rabisquei lá em cima, o amanhã pode não mais existir, antes mesmo que você tenha se dado conta disso. Resumindo: você pode não ter uma segunda ou terceira chance de fazer diferente, por exemplo. Pode ser a areia na pista, o excesso de velocidade, um descuido com a alimentação, com o bendito aparelho que mede a pressão.

Já eternizei essas mesmas palavras em outras ocasiões, mas, é sempre bom lembrar, quiçá, rabiscando numa cartolina para colar no teto do quarto:

“Raras são as vezes que temos uma segunda chance na vida, então: se está muito rápido, desacelere; se tem vontade de ligar para alguém que está com saudades, ligue; se está pensando em mudar de vida, mas tem medo que possa não dar certo, respire fundo, messe as consequências, os prós e os contras e faça, arrisque, quem não arrisca nunca saberá se teria ou não dado certo”.

A vida é cheia de truques e adora nos pregar peças, quando menos se espera, menos se espera.

Que bom que a semana acabou, o amanhã virá e com ele novos hábitos.

 

No mais, grato pelo aviso.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.