É muito bom quando alguém se prepara pra gente

Descobri, assim, meio sem querer, que um homem não pode e não deve chegar aos três/oitão sem ter experimentado ou tido o privilégio de — ao menos uma vez — esbaldar-se com uma mulher minuciosamente trajada (apenas) de espartilho e cinta-liga.

É, digamos, inconcebível e digno de pena.

— Estou quase chorando com dó de você — disse-me pelas redes a moça torcedora do leão da Ilha do Retiro.

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Pena. Pesar. Compaixão?

Fiquei em dúvida se ria ou se fazia da camiseta que ganhei de amigo secreto no Natal um lenço para enxugar — também — as minhas lágrimas, ora, o que mais poderia fazer senão assumir meu suposto fracasso em relação aos tramites amorosos desde os áureos anos noventa.

O , tratou de justificar a amostrada frequentadora da praia de Boa Viagem, diz respeito aos preparativos antes dos lençóis virarem do avesso e onde entra — ou deveria ter entrado — o espartilho e a cinta-liga. Eu, ingênuo que só, enquanto tentava me lembrar de alguma vezinha sequer de mimos e gracejos, não bastasse o esquecimento, retomei à memória uma outra vez em que fui encorajado a inventar melhores finais para as aventuras com gosto de quero mais e que nunca, jamais, foram realizadas por completo.

Que mal amante sou, pensei, e que fique, claro, é só e tão-somente um pensamento e por isso não há como nenhum de vocês, leitores, saberem. Ufa!

Ufa, a propósito, foi algo que a pretensa dançarina de frevo cuspiu um pouco adiante no nosso diálogo.

É muito bom quando alguém se prepara pra gente — decretou.

Que ser mais desatento fui me sair, incapaz de perceber as terceiras intenções do óleo com cheiro de cravo e canela esquecido de propósito na penteadeira de casa e, anos mais tarde, ainda com metade do líquido e data de vencimento extrapolada com juros e correção, arremessado à escuridão de uma lixeira, triste, imagino eu, por não ter sido usado como tanto almejava, deslizante sobre costas, pernas e nádegas.

Não, não e não.

Mil vezes, NÃO.

Mas ainda me resta o verbo. Invenção, imaginação, ilusão. Sim, no fundo o que persiste é a ilusão de ter sido — tantas e tantas vezes — um tonto cego que não vê um palmo à frente do nariz. Uma amiga, certa feita, me disse, com ar zombeteiro, “Como vocês homens são bocós”, isso, depois, de segundo ela, eu (sempre eu) não estar sendo minimamente capaz de decifrar os mil e um códigos que uma outra moça estava me enviando. Por isso, talvez, nunca tenha sabido se naquela noite, e noutras depois daquela, havia nas entrelinhas uma calcinha com lacinhos.

Mas, por sorte — e mais uma vez, ufa — adentro o ano dos meus incontáveis três ponto nove com a certeza de já ter tido o prazer de manusear e tirar e colocar uma calcinha com lacinhos de um corpo feminino desenhado como as curvas de um calçadão de praia. E saibam, não é invenção. Que alívio!

Porém, talvez em respeito a todas vezes que banquei o tapado, deva a partir de hoje, redimir-me pedindo as mais sinceras escusas a todas que, por ventura, não tratei ou dei atenção que mereciam, com ou sem cinta-liga, calcinha de lacinho, meias sete oitavos e óleos para massagens sensuais, afinal, preciso estar preparado.

Que peque, ora bolas, por antecipação.

O ensinamento, e tenho dito, da dona de Itamaracá tatuarei na virilha: “é muito bom quando alguém se prepara pra gente”.