É fevereiro, é carnaval: e as mulheres?

Fevereiro é o mês da festa mais popular do planeta e da manifestação cultural mais celebrada no Brasil: o carnaval! É nesse período de festa, diversão e música, sobretudo no nordeste e na nossa Bahia, que as pessoas costumam se soltar, seja atrás do trio elétrico, das marchinhas e/ou dos blocos com fantasias e tudo está liberado.

É nesse momento que se intensifica o machismo e o assédio de maneira “autorizada pela sociedade” através do que se chama “objetificação do corpo das mulheres”, principalmente dos corpos femininos jovens, magros e esculturais. As propagandas das academias antes do carnaval, incentivando um “corpo perfeito” em termos de padronização é um bom exemplo. No carnaval os corpos feminismos são usados como meio de divulgação, promoção e chamamento para a festa. Também acontecem os beijos forçados, os “passar de mãos” e situações de abusos sexuais (estupro), de maneira a ser culturalmente aceita nesse período. É como se a sociedade dissesse: no carnaval pode, porque no carnaval tudo está liberado!

Há alguns anos o beijo forçado foi tipificado como tentativa de estupro e diversas campanhas são realizadas para tentar sensibilizar e conscientizar a população, sobretudo os homens que tais práticas são violências por serem invasivas, já que algo sem consentimento não pode ser visto com bons olhos. Durante o período carnavalesco, é permitido e incentivado que essa objetificação se manifeste através dos corpos seminus ou nus, maiormente no carnaval no trecho Rio-São Paulo, transmitido para todo o país pela televisão.

Dentre esses corpos, o da mulher negra certamente é “a carne mais barata do mercado”, sendo hipersexualizado, considerado exótico e pecaminoso, da “cor do pecado”. É como se durante o carnaval houvesse um fetiche em relação aos corpos das mulheres negras e estes estivessem à disposição para toda e qualquer realização sexual. Durante muitos anos, a Globeleza foi um símbolo desse machismo institucionalizado na telinha do plim plim, com ênfase nos corpos das mulheres negras. Esse ano, a mudança nas vestimentas e a presença de homens representando o carnaval significam um avanço em relação à luta empreendida pelo movimento feminista brasileiro.

No entanto, mesmo assim o machismo se manifesta. Em 2016 o Instituto Data Popular realizou uma pesquisa como contribuição à campanha Carnaval Sem Assédio, do site Catraca Livre. A pesquisa realizada com 3,5 mil homens brasileiros com idade igual ou superior a 16 anos, em 146 municípios, resultando que 61% dos homens abordados afirmaram que uma mulher solteira que vai pular carnaval não pode reclamar de ser cantada e 49% que bloco de carnaval não é lugar para mulher “direita”. Para piorar, a sondagem revelou que na percepção de 70% dos homens, as mulheres se sentem felizes quando ouvem um assobio, 59% acham que as mulheres ficam felizes quando ouvem uma cantada na rua e 49% acreditam que as mulheres gostam quando são chamadas de gostosa.

Tal pesquisa trouxe à tona a naturalização do machismo na sociedade brasileira e o sentimento de posse sobre as mulheres, fato que precisa ser urgentemente encarado pela sociedade brasileira. Esse debate, muito necessário e atual precisa ser encarado de frente por nós e não basta apenas alegar exagero, mimimi ou coisa do tipo, muito comum na “modernidade líquida”. Os fatos estão expostos, basta colocar as lentes de gênero para conseguir enxergar. Bom carnaval, lembrando que violência não é e nem pode ser considerada diversão.