Dr. Sin: uma banda curtindo cada momento como se fosse o último

No início da década de 1990, dois irmãos de Belo Horizonte chamaram a atenção do mundo, com o lançamento de dois discos inesquecíveis para o rock pesado em todos os tempos: Arise e Chaos A.D. Os riffs, a brutalidade e os vocais guturais de Max e Igor Cavalera soam hoje, guardadas as devidas proporções, como um violento pontapé nos fundilhos do planeta e quiçá de toda galáxia.

Um agressivo cartão de visitas que oportunizou a outras bandas despontarem no cenário nacional, tornando o país conhecido não só pelas seleções de 1970 ou 82, pelas mulatas do carnaval carioca ou pela mistura de cachaça, açúcar, gelo e limão que sempre fizeram — e farão, por todo sempre, amém — ruborizar as bochechas de Klaus Meine e Rudolph Schenker, espinha dorsal dos alemães do Scorpions e atração do primeiro Rock in Rio em 1985.

Passada a hecatombe provocada pelas duas primeiras edições do festival (a segunda, vale lembrar, em 1991, no Estádio do Maracanã), o Brasil saia às ruas pedindo a saída do então presidente Fernando Collor, o vinil começava a perder espaço para o CD e, enfim, o país começava a ser visto como uma terra capaz de gerar grandes bandas de música pesada. Uma delas, também formada por dois irmãos: Andria e Ivan Busic, músicos conhecidos na cena tupiniquim e que lançou seu primeiro disco autointitulado em 1993, Dr. Sin, contendo clássicos instantâneos como “Emotional Catastrophe”, “Stone Cold Dead” e a releitura de “Have You Ever Seen The Rain” do Creedence Clearwater Revival, música dos tempos em que os irmãos acompanharam o pai nos clubes de jazz da capital paulista e volta e meia era inclusa no set, a depender do público presente na casa.

Vinte e três anos depois do álbum de estreia o trio formado também pelo guitarrista Edu Ardanuy desembarcou no oeste baiano, para uma show (na sexta-feira, 23 de outubro, no Avenida Mix, em Luís Eduardo Magalhães), válido pela divulgação de seu décimo disco de estúdio Intactus (2014) e para aquela que será lembrada como a última turnê da banda, já que recentemente o trio anunciou o fim de suas atividades. “Nunca imaginamos que um dia a banda fosse acabar”, disse o vocalista e baixista Andria Busic, durante visita ao escritório da IMMAGINE, poucas horas antes do show em solo baiano.

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“A gente até chamou o novo disco de Intactus, por que a gente se sente fortalecido depois de tanto tempo junto”, complementa o baterista Ivan Busic que ratifica: “Sempre fomos muito unidos. Temos uma ligação musical inexplicável, mesmo antes de montar a banda, já tínhamos uma admiração um pelo outro e parecia praticamente certo que um dia a gente ia tocar junto. Mas, como banda é família, e com o tempo acaba virando, infelizmente, um business também, muita coisa acabou interferindo no que antes eram apenas melodias e rock n´roll”, explica.

Essa interferência, no entanto, parece estar longe de representar uma rixa entre os três. Tanto Andria, quanto Ivan são taxativos em dizer que a opção por encerrar as atividades da banda está ligada exclusivamente à preservação da amizade de mais de duas décadas. “Viramos praticamente irmãos esse tempo todo. Resolvemos parar para manter nossa amizade”, resume o baixista e vocalista. Em resumo: se o casamento não vai bem, que termine preservando-se a amizade e o respeito entre as partes.

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Após quase uma hora de conversa é impossível não incluir, também os fãs na lista das razões que fizeram com que a banda decidisse encerrar suas atividades tão prematuramente. O carinho especial pelos seguidores fiéis, ficou claro, desde a chegada dos Irmãos Busic ao escritório, quando, pegos de surpresa por uma versão acústica do hit “Futebol, Mulher e Rock n´Roll”, não pouparam sorrisos, aplausos e abraços de agradecimento ao duo da banda local Holywood House (Ranieri Trevisan (violão e voz) e Pierro Tozzi (gaita), responsáveis pela homenagem), e ainda mais evidenciado nas espontâneas lágrimas de Ivan, que em meio a uma resposta sobre o rock precisar ou não se reinventar, não resistiu às próprias palavras:

— A gente sabe que tá machucando muita gente.

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As lágrimas, de certa forma, resumem todo esse carinho e sintetizam o quão difícil está sendo para o trio lidar com a proximidade do fim da banda. No entanto, há espontaneidade suficiente em cada gesto e palavra para nos fazer crer que o legado da banda se perpetuará por muitos e muitos anos. “Nossos fãs são muito especiais, tanto a molecada quanto os caras mais velhos. Tem fã que acompanha a gente desde o começo, lá em 84 e tem outros que tão chegando agora, é impressionante. Tem muitas crianças que tão conhecendo a banda agora e se tornando fãs”, disse Ivan durante a entrevista.

Para Andria, que recentemente completou 50 anos, o mais interessante dessa turnê é que ela tá possibilitando tanto pra banda, quanto para os fãs, curtirem cada música do set e cada pequeno momento nos bastidores. “A gente tá curtindo cada momento e por isso queremos que todos os fãs sintam essa mesma energia que a gente tá sentindo no palco. Porque nós sabemos que isso tudo vai deixar saudade, tanto na gente que vive isso há 23 anos, quanto em vocês que nos acompanham e cantam todas as músicas”, resume.

A química entre banda e público, aliás, foi algo natural, horas depois no palco da Avenida Mix. Desde o primeiro acorde de “Down in the trenches”, do álbum Brutal (1995) a sequência com “Fly Away” e “Time after Time”, ambas de Dr. Sin II (2000) até o final com a trinca “Emotional Catastrophe”, “Have You Ever Seen The Rain” (as duas do primeiro disco da banda) e “Futebol, Mulher e Rock n´Roll” do Insinity (1997) e deu ainda mais sentido as palavras ditas pelos irmãos, quando ainda trajavam bermuda, camiseta e tênis esportivo e/ou uma camiseta despretenciosa do Superman.

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“Se tiver dez pessoas que gostarem do show já tá valendo”, disse Andria. “Uma vez fizemos um show nos EUA que tinham 30 pessoas”, continuou. “O melhor show das nossas vidas tinham 14 pessoas e foi quando assinamos com a Warner”, cravou, como um guerreiro medieval crava sua espada no inimigo, antes de sentenciar: É melhor um show desses que tocar num grande festival onde nada acontece. Às vezes você toca num festival pra 100 mil pessoas, e não tem nada de especial, e outras você toca num barzinho e é um puta tesão.

Aliás, as últimas palavras de Andria, em relação à expectativa para o show em Luís Eduardo Magalhães, foram definitivas:

Vamos tocar como se esse fosse o último show de nossas vidas. Portanto, se amanhã eu morrer, morro feliz.

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E assim foi, com todos que tiveram a chance de acompanhar o show. Sem nenhum exagero, tampouco uma tragédia desse quilate, mas com a certeza que a felicidade proporcionada, primeiro pela Vintage Band e depois pelos irmãos Andria e Ivan Busic e o guitarrista Edu Ardanuy foi única e prova que o rock n´roll continua vivo, pulsante e presente no coração de muita gente e graças aos deuses do rock, de um público cada vez maior na capital do agronegócio.

Aliás, por falar em coração, obrigado Irmãos Busic e Dr. Sin.

Cada um do seleto, mas energético público de Luís Eduardo Magalhães presente ao show e ao workshop, agradece.

Abaixo a letra da clássica “Revolution”, presente no álbum Insinity (1997) e que segundo os irmãos Busic foi responsável por salvar a vida de um dependente de drogas, alguns anos atrás:

“Revolution” / “Revolução”

Let’s say no money / Vamos dizer não ao dinheiro

Let’s say no crimes / Vamos dizer não ao crime

Let’s say no limits / Vamos dizer não aos limites

Let’s say no war / Vamos dizer não à guerra

Let’s say no hate / Vamos dizer não ao ódio

Let’s say no pain / Vamos dizer não à dor

Let’s say no fear / Vamos dizer não ao medo

Let’s say no more / Vamos dizer nunca mais!

People why don’t you scream / Por que vocês não gritam?

Fight for your dreams / Briguem pelos seus sonhos

Here comes the revolution / Lá vem a revolução

 People why don’t you scream / Por que vocês não gritam?

Live for your dreams / Vivam para seus sonhos

Here comes the revolution / Lá vem a revolução

Some promise you heaven / Alguns te prometem o paraíso

But give you hell / Mas te dão o inferno

Some have no mercy / Alguns não tem piedade

They kill for fun / Matam por diversão

You may call me a dreamer / Você pode me chamar de sonhador

You may think I’m fool / Você pode achar que eu sou um tolo

But I have to believe that – I’m not alone / Mas eu tenho que acreditar – que não estou sozinho

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“Tem muito espaço pro rock n´roll, queremos que as bandas continuem, nós vamos continuar também, claro, com pé no chão, o espaço pro rock n´roll no Brasil não é o espaço do Fernando e Sorocaba por exemplo”

O rock n´roll tem muito disso, geralmente alguém da sua família, um vizinho, num belo dia vai salvar tua vida e te apresentar um LP do Deep Purple ou do Iron Maiden. Depois disso tudo muda”, diz Ivan.

Na galeria as fotos desse momento histórico.

Imagens: Alex Hideo.