Divinamente fabuloso

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Era uma mistura de sangue, feno, placenta, choro de bebê e alegria. Ela respirava aliviada, depois de alguns longos minutos de dor de parto, aninhava-se em seu seio aquele pequeno ser humano. Sua cabeça girava com tantos pensamentos e ter aquele pequeno ser em seus braços era o alento que lhe restava.

Muitos diriam que era loucura sair do conforto de sua casa dias antes do parto, mas essas pessoas não têm ideia do que é ter sua casa sitiada por milícias. Tais pessoas nunca ouviram tiros à porta de casa e bombas caindo como chuva torrencial sacudindo móveis, disparando alarmes e roubando mais uma noite de sono. Desejava que o filho nascesse em segurança. Em paz. Longe de tudo aquilo.

Os resquícios de esperança alimentaram a longa caminhada junto com pão seco amassado por gente ruim e água. Caminhar com o peso de 9 meses era praticamente um milagre que se mesclava no meio de tantos refugiados. Receber tantos ‘nãos” na cara e a recusa de um abrigo fazia-a sentir-se menos que um animal.

A exclusão ela já tinha sentido de inúmeras formas à flor da pele. Menina-mulher, negra, analfabeta e pobre. Grávida. Talvez esse fosse o maior problema. Desconfiaram de sua honestidade, afinal nem 330 mulheres são dignas de serem levadas à sério diante de uma sociedade patriarcal. Esse era o seu caso. Não poderia contar com a compreensão. Era mais fácil ser vista como vagabunda, mulher fácil, que “dá pra qualquer um”. Era mais fácil desistir de tudo aquilo. Ter deixado um feto sem ver a luz. Porém, contra tudo e todos, ela decidiu ser mãe.

Quando anunciou sua gravidez, tremia muito. Tremia e temia as reações. Quase que por um milagre de sonho, seu companheiro não a abandonou. Ele era carpinteiro, mas bem vivia de alguns bicos. Decidiu engravidar junto e tornar-se pai. Sabia que não poderia dar ao filho uma vida de luxos. Podia fazer-se presente, o que significava agora segurar a mão de sua companheira e cortar o cordão umbilical. Ele contemplava aquela nova vida ali, pronta para experimentar as dores e alegrias da humanidade.

Ela respirou fundo. Aquele momento de abandono era um privilégio. Aquele estábulo-abrigo era a casa que há muito havia sonhado: sem guerras, sem violência, sem coiotes, sem preconceitos, sem sociedade hipócrita. O estábulo era o que de mais próximo do Céu ela já havia experimentado. Como testemunhas apenas os animais em sua mansidão, talvez os únicos dignos de crédito. Ela guardava tudo aquilo em seu coração, como uma velada prece. Ainda não sabia para onde iriam depois, mas de uma estranha maneira, do jeito que só a fé pode atestar, ela sabia que tudo aquilo era divinamente fabuloso.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.