Dia Mundial do Livro – Entrevista com Escritores

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Já dizia Voltaire: “um livro aberto é um livro que fala; fechado, um amigo que espera; esquecido, uma alma que perdoa; destruído,um coração que chora“. Monteiro Lobato também disse que “um país se faz com homens e livros.” Como eles já afirmaram acima, é impossível negar a importância e o impacto que os livros têm na sociedade.

Livros têm o poder de mudar pensamentos, abrir a mente e interferir diretamente na formação do indivíduo. A literatura é cultura. Não importa o gênero, quando terminamos de ler um livro já não somos mais quem éramos antes, alguma coisa muda dentro de nós: uma ideia, uma opinião ou um novo aprendizado. Para aqueles que acham “chato” ler, o professor Pierluigi Piazzi dizia em suas palestras que “só obtém algo interessante da vida, da escola, do trabalho que lê muito e só lê muito quem lê por prazer.”

Em 1996, a UNESCO definiu o dia 23 de Abril como Dia do Livro e Dia do Direito ao Autor. Essa data também é bastante significativa por ser homenageado nela três dos maiores escritores de todos os tempos: nesse dia comemora-se o nascimento (1564) e a morte (1616) de William Shakespeare; a morte de Miguel de Cervantes e o nascimento de Vladimir Nabokov.

Como é impossível falar de livros sem falar dos autores que os escrevem, convidamos alguns representantes para uma entrevista especial no Dia do Livro! Conheçam nossos convidados e boa leitura:

Jader Pires (São Paulo), é escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.

Anton Roos (Luís Eduardo Magalhães) Jornalista e escritor, começou a escrever na adolescência e hoje é autor dos livros A gaveta do alfaiate (2014) e A revolta dos pequenos gauleses (2015). É também colunista aqui no blog onde escreve crônicas semanalmente.

Alec Silva (Luís Eduardo Magalhães), é começou a escrever motivado por Jurassic Park, mas o primeiro livro, Ariane, escrito em 2007, bebeu da lenda de Eros e Psiquê. Publicou Zarak, o Monstrinho em 2011, inaugurando o gênero autobiográfico fantástico e, em 2013, apresentou A Guerra dos Criativos.

 Baltazar de Andrade (Curitiba), nasceu com outro nome, mas acha Baltazar muito mais bonito. Criado nas imediações de Curitiba, cresceu rodeado pela coleção de livros do pai.  Metamorfose – O Inimigo Nas Sombras é seu primeiro livro. Paralelamente a série “Rastro Psíquico” está escrevendo o livro O Vidente de Aparelho Quebrado.
Amante inveterado da literatura nacional e criador relapso de idéias fugitivas.

Ricardo Haseo (Luís Eduardo Magalhães), é um leitor voraz, principalmente de horror, focando neste gênero para conceber seus trabalhos. Participou da coletânea Fragmentos (2015) estreando com o conto Imperdoável, em seguida publicou a noveleta O Último dos Dias. 

Como e quando iniciou seu interesse pela escrita?

Alec: Bem, não sei ao certo com que idade, mas sempre tive fascínio por letras, pelos símbolos que elas representam quando ainda não sabemos ler; quando aprendi a ler, algo me chamou tanto para a leitura quanto para a escrita, e quando dei por mim, em 2004, vendia livretos feitos a mão na escola e, em 2007, tinha escrito um livro com quase 100 folhas de sulfite, também a mão.

Anton: Minha relação com a escrita vem da infância. Creio que na adolescência isso se acentuou a partir de algumas boas influências e acabou por se consolidar com minha entrada para cursar jornalismo. Desde o primeiro dia na academia eu sabia que o que eu queria fazer era escrever.

Baltazar: Com o exemplo, meu pai não saía de casa sem algo pra ler, eu acabei pegando esse hábito. Desse vício moderado até a dose mais forte que é a escrita foi só um passo.

Jader: Foi algo tão orgânico que nem sei precisar. Mas buscando na memória, eu sempre fui de me meter com as artes. Tive banda quando era garoto, pichei muro, fiz grafitti, gostava de cantar, desenhar, assistir filme e desenho. Da música veio o gosto de botar palavras de um jeito bonito no papel. Poesia, cartinha para as namoradas, desejos, ficção. Cheguei aqui, nessa conversa contigo.

Ricardo: Quando criança, eu adorava criar minhas próprias brincadeiras, imaginava personagens e papéis. Na adolescência, não dava mais para ficar brincando com bonecos (risos), então desviei essa criatividade para o papel, primeiro com poemas, depois para pequenos contos.

O que te dá inspiração para escrever?

Alec: Uma música com uma letra legal, alguma coisa que leio numa revista, uma emoção ou um questionamento; qualquer coisa pode inspirar um conto, por exemplo. Mas, no geral, busco muita inspiração em mitologias, história antiga e simbologia, sobretudo porque escrevo histórias de teor fantástico.

Anton: Inspiração é algo bem subjetivo. Varia muito do meu humor, do momento que estou passando. Gosto das coisas do cotidiano, as miudezas desse universo real e fascinante dos seres humanos.

Baltazar: Só o vício me move, se eu ficar sem escrever por muito tempo ataco o vidrinho de Rivotril, então a inspiração é obrigada a aparecer.

Jader: Eu escrevo sobre o cotidiano. Um cara esperando para atravessar a rua e jogando seu cigarro no chão me dá motivos para escrever. O processo que fiz fui fazer do olhar, uma lente que vê beleza até no trivial e no sujo. O que me inspira é ver essa gostosura no que é bobo, ou seja, em todos nós.

Ricardo: Muitas coisas, desde filmes e livros a situações do cotidiano. Viver me dá inspiração, já que o mundo ao meu redor é vivo; na minha mente eu o distorço e o recrio sob uma nova ótica e ordem, depois é só passar para o papel. Meu gênero favorito é o horror, então creio que, entre todas as coisas, meus pesadelos sejam minha maior fonte de inspiração.

Você tem livros publicados?

Alec: Sim, tanto físicos quanto em e-books, que são em maior número.

Anton: Tenho dois livros publicados em formato físico: A gaveta do alfaiate (2014) e A revolta dos pequenos gauleses (2015). O primeiro é uma coletânea de crônicas e o segundo de contos ficcionais. Além destes, tenho um conto e três crônicas publicadas na antologia Fragmentos (2015), que reúne 100% de autores locais. Também participei de um e-book no final do ano passado com um conto chamado “Tapete de castanhas”, além das versões digitais dos contos “Maquete” e “Adolfo”, todas disponíveis na Amazon.

Baltazar: Só em e-book, um romance e uma porção de contos meia-boca.

Jader: Tenho o Ela Prefere As Uvas Verdes, meu primeiro livro de contos.

Ricardo: Tenho dois contos publicados, o primeiro se chama “Imperdoável”, publicado na coletânea “Fragmentos” (2015), que reúne contos, crônicas e poemas de autores locais; o segundo é “O Último dos Dias” (2015). Ambos possuem formato físico e digital, publicados pela EX! Editora Independente.

Quanto tempo levou para escrever seus livros e como foi a experiência? 

Alec: Depende muito o tempo de escrita; tem conto menor que 7 mil palavras que leva semana para ficar pronto; outros, com mais de 10 mil escrevi em quatro dias. Meu primeiro romance, em 2007, levei quatro meses; o mais demorado, que me exigiu pesquisas intensas acerca de física quântica, foi concluído em dois anos. E geralmente é divertido e enriquecedor, pois acabo aprendendo coisas no decorrer da escrita ou usando algo que sei e não teria muita utilidade no cotidiano em algum momento na história.

Anton: A gaveta do alfaiate estava praticamente escrito antes de sequer cogitar publica-lo. Tudo que fiz foi selecionar, revisar e dar uma nova roupagem para as crônicas escolhidas. Já no caso de A revolta dos pequenos gauleses, escrevi o conto que dá nome ao livro, a princípio para lança-lo isoladamente. Creio que demorei uns três meses pra finalizar esse material. Os demais contos do livro, escrevi no período em que o livro já estava começando a ser formatado. Para ambos livros, a experiência foi incrível. Primeiro, por ver um livro seu publicado, palpável. Segundo, por ter a oportunidade de descobrir na ficção um universo muito atraente e plenamente possível.

Baltazar: O romance, uma ficção científica, demorou sete meses pra ser escrito, sou uma tartaruga manca, escrevo bem devagar. Foi um laboratório, serviu para que eu pudesse obter certa maturidade quanto ao mercado

 Jader: Olha, acho que foram três meses para escrever o livro e mais uns três pra lapidar tudo, texto, revisão, capa, título. A experiência foi a mais deliciosa possível, finalmente botar em uma obra maior o meu esforço de contar histórias do cotidiano.

Ricardo: “Imperdoável” levou algumas semanas; já escrever “O Último dos Dias” foi uma experiência completamente diferente, levou cerca de oito meses desde o processo de escrita até revisão e publicação; foi um conto que me deixou orgulhoso, consegui transmitir nele todo meu estilo e formar meu perfil como escritor.

Quais são as dificuldades para que um autor consiga ter um espaço e ser conhecido no mercado literário brasileiro?

Alec: Falta incentivos de todos os lados, sobretudo do leitor, e arrisco até a dizer do leitor local, que parece ter receio ou preconceito quando descobre que o escritor é da cidade em que mora; mas isso aos poucos é trabalhado e acaba sendo derrubado. Há ainda o descaso do poder público, mas não entrarei muito nesse caminho. E para alcançar o mercado literário brasileiro, estar em livrarias, é preciso ter nome conhecido, e é difícil ter nome conhecido sem apoio ainda na base, quando estamos começando.

Anton: Tem vários fatores que dificultam. O primeiro deles é que naturalmente, em especial com a incursão cada vez mais assídua da tecnologia na vida das pessoas, o interesse pela leitura de livros impressos diminuiu. Isso, logicamente, acarretou em menos investimento na publicação de novos autores. As editoras, de um modo geral, tem apostado em autores que sejam certeza de bom retorno. Com isso, os autores iniciantes — que são muitos — pendem para a auto publicação e editoras menores, normalmente, bancando a maior parte dos seus livros.

Baltazar: Fica difícil numerar, tanto que nem gosto de falar das dificuldades. Se o autor for se importar com elas entra em depressão. Temos que vê-las apenas como degraus em um caminho de árduo aprendizado.

 Jader: São as mesmas de qualquer artista de qualquer vertente no Brasil que quer produzir mais arte que produtos culturais. É muito ruído e muita gente tentando para pouco público realmente engajado. O Brasil consome pouca cultura, infelizmente, o que impede, muitas vezes, que o cabra consiga simplesmente pagar suas contas com o que produz artísticamente. Não é nem ser famoso e rico. Só ter o mínimo. Mas a gente acorda, todos os dias, na luta. Eu tive a sorte de poder, hoje, sobreviver disso.

Ricardo: Dificuldades existem de sobra, desde conseguir uma editora de qualidade até ser publicado. A internet trouxe o advento das redes sociais, que possibilitaram os autores se divulgarem gratuitamente, e meios de publicação baratos e eficientes, como a Amazon. O grande problema é que há editoras de todas as formas, desde as picaretas até aquelas que querem realmente fazer um trabalho sério, mas acabam sendo esmagadas pelas “grandes”. Em meio a tanta competição, é quase impossível um autor conseguir um espaço significativo sem ajuda; contudo, há alguns que conseguem se sobressair e alcançar seu lugar ao sol, mas também há verdadeira joias literárias que ficam reservadas ao esquecimento.

 

Um livro nacional que você recomenda?

Alec: Há vários, mas citarei um que combina muito com o poder da leitura: “Livraria Limítrofe”, de Alfer Medeiros, um amigo e incentivador que me ajudou bastante quando eu estava amadurecendo a escrita.

Anton: Barba ensopada de sangue, Daniel Galera

Baltazar: Não há um livro em específico, mas indicaria todos do Samuel Cardeal, do Alfer Medeiros, Walter Tierno e vou parar por aqui pra não superlotar a lista.

Jader: Poxa, vou de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera, do Raduan Nassar, e o clássico dos clássicos, Grande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa.

Ricardo: Não é preciso ir muito longe: Luís Eduardo Magalhães possui um acervo literário modesto, porém, precioso. “A Guerra dos Criativos” e “A Gaveta do Alfaiate” são leituras fascinantes, seja no campo da fantasia de Alec Silva ou no deleite das crônicas de Anton Roos.

Quais dicas você daria pra quem quer seguir a carreira de escritor?

Alec: Leia de tudo e muito, e não apenas o que você gosta. Escreva de tudo e muito, ou ao menos o suficiente para desenvolver sua escrita e seu estilo. Aceite conselhos, mas saiba recusá-los, aprenda com seus erros e os erros dos outros. E o mais importante: nunca aceite um elogio como uma verdade absoluta e nem uma crítica negativa como uma derrota definitiva; aprenda a extrair o melhor de cada momento.

Anton: Escreva. Não pare de escrever. Reescreva se for preciso. Não se desespere com as criticas. Elas viram e são necessárias para que você cresça como escritor. O mundo do escritor é muito solitário. Difícil. Você logo vai perceber que há pouca valorização, até mesmo de quem está próximo a você. Não estagne, achando que a oportunidade de ouro vai lhe bater a porta. Escreva. Publique suas obras em formato digital. Ouça o que outros autores tem a lhe dizer. Respeite e principalmente, não tente copiar ninguém. Seja você. Faça com que teus textos tenham a sua identidade.

Baltazar:  “Perdei toda a esperança, oh vós que entrais”, mas falando sério, a maioria pensa que é escrever, ser descoberto e faturar milhões. Quando a realidade é bem mais suor e gasto do que lucro financeiro. Se você quer escrever um livro porque quer ganhar dinheiro, pare por aqui. Eu escrevo pra ser lido, o resto é secundário.

Jader: Respira, amigo. Inspire (leia bastante, adquira repertório, vocabulário, estilos) e expire (transpire, escreva, trabalhe tudo o que você absorve). O hábito vai te lapidar.

Ricardo: Esteja ciente que este é um mercado competitivo e brutal, que você enfrentará dificuldades, mas se é isso que você quer, vá em frente, não desista. Absorva todas as críticas e tente melhorar com elas; e o mais importante de tudo: escreva primeiro para você, ame aquilo que você faz, se debruçar sobre a caneta ou o teclado, e coloque o coração naquilo, da forma mais crítica e séria possível, pois se nem você acreditar no que escreve, não tem o direito de pedir para que os outros acreditem.

 

Nossos sinceros agradecimentos aos autores que colaboraram com essa matéria!

Conheça melhor o trabalho de cada um:

Jader: AQUI

Ricardo Haseo: AQUI

Alec Silva AQUI

Baltazar de Andrade AQUI

Anton Roos AQUI

Uma agência incomum de comunicação integrada.