Desistência e fracasso

By  |  0 Comments

Estava resistindo à tentação de desistir de um livro que desde abril tentava concluir a leitura. Não revelarei título ou autor. O livro, a propósito, é o que menos importa. Gostaria, isso sim, de propor uma reflexão sobre o verbo desistir.

Quantas desistências tivestes esse ano? E ontem? Semana passada?

Esqueça o livro, já disse. Se pegava no sono em menos de cinco páginas, o problema é meu e olha, o livro em questão é muitíssimo bem escrito e vencedor do Prêmio Jabuti.

De novo, não importa.

Já paraste para pensar no quanto as desistências que tivestes ao longo da tua vida influenciaram para o bem e para o mal no que viria a acontecer no teu futuro? No que és hoje? Onde estás? Com quem se relacionas? O que fez ou deixaste de fazer?

Eu não gosto de desistir.

(Será que alguém em sã consciência gosta?)

Aliás, não queria ter desistido. Como disse, estava resistindo, tentando a duras penas superar as páginas que restavam para concluir a leitura do livro. Tentei intercalar outras leituras para não cair na desgraça da desistência, do abandono, do fracasso.

Desistir é aceitar o fracasso.

E talvez eu estivesse adiando dia e hora de assumir que fracassei com esse livro.

Menos mal que é só um livro.

Espero de coração que 2018 não me traga desistências.

Basta.

Há quase dois anos para esse mesmo blog, escrevi uma crônica chamada “Desistir às vezes faz bem”. Recapitulemos o penúltimo parágrafo:

Às vezes o melhor a fazer é virar a página antes que tudo que estiver escrito nela perca sua importância ou se torne um fardo pesado demais para carregar.

Bonito, não?

Agora, só um detalhe: às vezes. Desistir pode ser aquele verbo que se conjuga lá de vez em quando, mas só. Não foi feito para ser praticado todo santo dia. Um fracasso às vezes, também, pode fazer bem, por que não?

Só não pode ser constante.

Desistência e fracasso deveriam permanecer na prateleira das raridades, daqueles eventos que acontecem esporadicamente e servem de aprendizado, nada além disso.

Desistência e fracasso não devem jamais permear a vida de quem quer que seja, mesmo quando se trata de um livro premiado (meu caso).

Eu não sei quantas desistências tive esse ano, ou ontem ou semana passada — talvez não queira exercitar a mente até encontrar um número definitivo. Entendo sua dificuldade. Não somos fadados a reconhecer o que nos faz desistir e fracassar. Para quê, né? Melhor alimentar a falsa ilusão de se estar fazendo tudo certo, mesmo quando lá no fundo sabemos que esse “tudo certo” não passa de uma mentira.

Desistência e fracasso, por fim, talvez sejam necessários para que possamos evoluir.

Aprender. Corrigir. Melhorar.

Crescer.

Usemos nossas desistências e fracassos para crescer. É isso, afinal, existem tantos outros livros na estante, de nada adianta insistir no sofrimento. Nada.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.