#DeixaElaTrabalhar: Lugar de mulher é realmente onde ela quiser

Lugar de mulher é no gramado (de preferência batendo o escanteio e correndo pra cabecear)

Nos tempos áureos da minha vida, onde eu podia escolher o que queria fazer da mesma, eu seria a repórter esportiva do curso. Haviam outros que queriam seguir o mesmo caminho, mas não outras. Já começava por aí: com quem discutir sobre a maior paixão do brasileiro, no caso, o futebol? Com homens. Como fazer com que eles me respeitassem? Não sei.

Não demorou muito tempo, os campeonatos chegavam às suas retas finais e eu, claro, não perdia um. “Quando me formar, quero ser repórter de campo, ou quem sabe fotógrafa esportiva, ligada ao futebol”, eu dizia. Mas você sabe quantas repórteres adentravam o gramado para falar com jogadores? Nenhuma. A apresentadora que figurava entre a referência feminina na atmosfera do futebol era mais um sexy simbol do que uma comentarista. E isso, obviamente, não servia para mim.

Eu sempre quis ser o Tino Marcos, o Mauro Naves, o Abel Neto, o PVC, o Fernando Fernandes, o Nivaldo de Cillo ou até mesmo o Bruno Laurence. Nunca quis ser a “algum nome feminino”, porque não tive essas referencias femininas no esporte. E como eu disse, Renata Fan nunca foi referência para mim.

Escrevi sobre futebol. Assuntos táticos, do coração, lógicos, poéticos, comemorativos, inúmeros artigos. Sentei em mesas de bar para discutir com homens que jamais souberam o quanto eu me dedicava a isso e, depois de uns dois anos, desisti da carreira. Por que? Falta de apoio e de espaço.

A mesma falta de apoio que eu senti quando expus a minha vontade de ser aquilo que nenhuma ou poucas conseguiram ser, até então, me fez desistir de seguir em frente. Foi por ouvir que “mulher só servia na hora do futebol para buscar a cerveja na geladeira”, ou que “mas você realmente sabe o que é um impedimento?”, ou até um “você só assiste futebol por causa do Neymar” que eu desisti. Por outras questões financeiras e logísticas também, mas que pesaram muito menos que todo esse desserviço prestado por aqueles que ainda acreditam que a mulher é totalmente incapaz de entender sobre o que nos fizeram acreditar ter sido feito exclusivamente por homens e para homens.

Hoje, formada e trabalhando em outra área, (mas ainda levando o futebol muito a sério), percebo o quanto ainda falta espaço para mulheres trabalharem dignamente e com respeito nesse meio. Não é incomum vermos matérias e vídeos documentando que repórteres femininas foram beijadas ao vivo, que receberam investidas de jogadores, etc. Isso acontece sempre e, sinceramente, não é legal. Como aconteceu no caso esta moça aqui, que após ser beijada por um torcedor quando estava exercendo sua profissão, resolveu se manifestar. (Leia sobre aqui).

As pessoas que desrespeitam uma mulher por estarem num ambiente taxado erroneamente de masculino, não sabem o quanto essas mesmas mulheres estudaram e batalharam para crescerem e se destacarem num mercado que é muito concorrido. Não sabem como é difícil se sobressair em uma profissão que prefere, desde sempre, homens. Não tem segredo: tratar as pessoas como profissionais é o caminho para resolver todos os problemas ou pelo menos evitar que eles comecem a aparecer. Mas você pode começar pensando e entendendo que mulheres sabem do que estão falando quando se propõe a fazerem algo, seja na cozinha, na sala de aula ou num gramado sintético cercado por linhas brancas e bandeiras de escanteio.

É engraçado dizer isso, mas eu, jornalista formada há não pouco tempo (mas já com belos 7 anos de profissão exercida), já fui impedida de trabalhar em locais simplesmente porque sou: mulher. Não faz sentido na sua cabeça? Pois é, na minha também não.

Entendam que o futebol (assim como a política e tantas outras áreas da nossa vida) foi feito para profissionais que sabem o que estão fazendo, sejam eles ou elas. Enquanto houver uma bola rolando no gramado, eu estarei assistindo, e cornetando, e torcendo, e escrevendo, e suplicando para que vocês, homens sem noção, entendam que: lugar de mulher é onde ela quiser. E eu, meus amigos, quero sim estar no futebol. Respeitem, pois nós sabemos muito bem o que estamos fazendo.