Das coisas que a gente precisa lembrar

By  |  0 Comments

Conheço muita gente esquecida, do tipo que não perde a cabeça, pois está colada ao corpo. Por deveras, pessoas estão com a cabeça tão cheia de informações que se esquecem do mais trivial. Sei de uma senhora que certa vez saiu de carro deixando sua bolsa sobre o capô e até de certo pai que esqueceu o filho pequeno dentro do supermercado e só se deu conta disso quando já estava chegando em casa. Confesso que quando estou no supermercado dificilmente vou lembrar-me do que realmente preciso e, quando não faço a listinha de compras, chego em casa com muitas coisas que nem precisava!

Existem dentro de nós inúmeras gavetas de memória. Existem informações que ficam no raso da nossa mente: a compra do mercado (não no meu caso), o meu nome e endereço, o horário de trabalho e até mesmo aquela gentileza recebida hoje cedo. São as memórias e informações que ficam na superfície da gaveta. É só abrir e encontrar o que precisamos! Há algumas gavetas abarrotas e entupidas, tão confusas e complexas que fugimos delas; outras são relativamente arrumadas e nos orgulhamos imensamente delas; e ainda outras que armazenam coisas que acabam ficando no esquecimento.

Sempre gostei do filme “como se fosse a primeira vez”, é um daqueles longa-metragem ‘mamão com açúcar’ que fazem a gente acreditar no amor altruísta.  Na trama, a personagem principal sofre de uma enfermidade que faz com que ela rapidamente se esqueça de fatos que acabaram de acontecer. O rapaz que se apaixona por ela, por causa dessa memória curta, é obrigado a fazer um pequeno vídeo para que ela assista e lembre diariamente de tudo o que aconteceu, fazendo um tipo de retrospectiva diária das coisas que ela precisa lembrar para viver.

Seria muito bom poder diariamente me lembrar de quem sou. Minha essência. Meus valores. Minhas lutas e derrotas, aquilo que é fundante em minha vida. Queria poder lembrar diariamente que preciso ter coragem para abrir certas gavetas abarrotadas da minha vida e pô-las em ordem. A gente deveria lembrar sempre que precisamos comer bem, que deveríamos acreditar mais nas nossas capacidades. Alguém deveria nos lembrar constantemente que sabotamos a nós mesmos por causa do medo. Há que se lembrar que nos maltratamos criticando nossos próprios esforços e mantendo-nos em relacionamentos tóxicos. Precisamos lembrar sempre que ninguém é feliz escondendo quem se é para agradar os outros. A gente deveria lembrar que um dia a vida termina e, que talvez, hoje seja o último dia.

Dou-me conta de que é tanta coisa que preciso lembrar que estou quase apelando para uma listinha. Não quero perder a vida me ocupando de coisas secundárias, enquanto que o mais importante e fundamental fica esquecido no fundo da gaveta.8

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.