Crônica | Camisa de botão

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Não costumo usar camisa de botão. Aliás, são raras as vezes que as uso. Na maioria, prefiro a básica camiseta velha de guerra. Questão de preferência pessoal mesmo. Talvez, baseada naquela máxima que diz ser melhor vestir-se com aquilo que te faz bem, independente do que os outros vão dizer a respeito.

E o fato é que camisetas me fazem bem. Simples assim. Camisas de botão, por outro lado, nem tanto, embora, precise, esporadicamente, tirar uma delas do guarda-roupas, pois, infelizmente certas ocasiões exigem e a vida adulta ensina que uma camiseta com a estampa do Grace Under Pressure, quando você menos esperar, vai ficar bem melhor na morena de cabelos cacheados que um dia dormiu ao seu lado.

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“Eis a capa que um dia foi estampa de uma camiseta que acabou ficando bem melhor naquela morena de cabelos cacheados”.

Dia desses tirei uma dessas camisas de botão do meu guarda-roupas. Susto. Estranheza. Após certo período interagindo com as mesmas pessoas todos os dias, a exceção provoca reações dispares. Como se uma camisa de botão pudesse me catapultar para outro patamar, bem diferente, daquela quase impressão de despojado que as básicas camisetas da maioria das vezes dão a entender.

Senão, reparem:

— Humm, tá bonitão hoje?

(Será, que nos outros dias, quando a preferência pelas velhas camisetas fala mais alto, estou menos ou nenhum pouco “bonitão”)

— Tá diferente, com um ar mais sério.

(Diferente, ok, mas “com um ar mais sério”? Então, como estou nos dias da básica camiseta? Menos sério? Engraçado? Largado? Relaxado?)

Essas foram apenas algumas das reações que ouvi, depois de, num dia de sol desses qualquer, trocar a básica camiseta velha de guerra por uma camisa de botão de manga longa.

E…

Uau!

Chega a ser impressionante.

Conclui, sem muito esforço, que um homem “bem” vestido com uma camisa de botão mexe — e muito — com o imaginário feminino. A mudança no olhar e até mesmo nos gestos é/foi notória. A feição do rosto pareceu ganhar um acento próximo ao canto dos lábios. Uma dose de marotice, quase imperceptível, mas ainda assim, escancarada nas entrelinhas de um sorrisinho bobo.

Nada disso, no entanto, foi ou um dia será capaz de me fazer substituir as básicas camisetas velhas de guerra por novas camisas de botão. Prefiro o que me faz bem. Ponto. Hoje pode ser aquela nova camiseta com a estampa do Grace Under Pressure, adquirida depois que a morena de cabelos cacheados levou embora a primeira; amanhã uma camisa de botão.

Tanto faz.

A reação que um barbudo degenerado vestindo uma velha e surrada camiseta e uma camisa de botão bem passada conseguem provocar é o que realmente importa.

Aliás, nós, homens, temos reações parecidas quando, por exemplo, vemos uma mulher que normalmente usa calçados sem salto, num belo dia, resolver abalar o mundo com um onipresente salto alto.

O acento no canto dos lábios é o mesmo. A diferença, se muito, reside entre o uso do batom e a preservação de uma robusta barba.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.