Crônica | Apesar da morte

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O esquife estava diante de todos nós. Entre lágrimas, soluços e muito choro, ouviam-se sussurros entre abraços. Palavras de consolo e conforto eram ditas aos enlutados. Palavras ao vento, por suposto, pois o choque da perda tampa ouvidos. Os olhos estão muito ocupados com as lágrimas, para que os ouvidos possam exigir algum protagonismo.

Ah, meus ouvidos desobedientes! Ouvia crianças correndo e brincando lá fora. Me incomodavam suas risadas. Afinal, deveriam estar tristes – todos sem exceção. Mas as crianças precisavam se importar com a vida, a morte e seu ritual não lhe eram importantes. É bem possível que essa criançada tenha passado uma das tardes mais felizes da temporada, apesar da morte era importante brincar.

Não bastasse o som das risadas, ouvia claramente o som da cidade. Passava nos arredores, um carrinho de som anunciando as promoções do supermercado local, enquanto que na escola próxima, os alunos dançavam animadamente a quadrilha, dados os festejos juninos. Abaixei a cabeça, sorri e praguejei: cidade barulhenta sem respeito! Desde pequeno aprendi que o silêncio anda lado a lado com o que deve ser respeitado. Desejava que a dor daquele luto fosse respeitada, mas apesar da morte, o barulho existe revelando que sua dor não é maior ou menor para que o mundo pare.

Na cerimônia, quando as pessoas se silenciam, toca o celular de alguém. Na minha cabeça só uma pergunta: Porque os celulares s-e-m-p-r-e tocam nessas horas? Talvez para alertar um vivo descuidado (que ainda não foi apresentado ao modo silencioso de seu aparelho celular) que, apesar da morte, ele terá um compromisso trivial no dia seguinte ou simplesmente para fazer a cabeça dos espectadores balançar em reprovação ao seu discreto “ALÔ! NÃO POSSO FALAR AGORA. LIGA DEPOIS”. Dica de etiqueta para casamentos, velórios, formaturas e batizados: Desligue o celular!

É muito bom poder contar com amigos e amigas diante do sofrimento da morte de um ente querido. Abraços são muito bem-vindos. Palavras nem tanto, como disse, os ouvidos de quem sofre são coadjuvantes. Ao que se despede, o toque na pele se torna transmissor daquilo que é difícil de expressar em palavras: a solidariedade. Apesar da morte, quisera que as pessoas se abraçassem mais, a vida anda deprimida porque carecemos de mais empatia solidária para fazê-la valer um pouco mais.

Quando os gestos falam, estes se corporificam em mãos trazendo buquês de flores, coroas de flores, arranjos colhidos nos jardins de casa… parece que a gente se reconforta. Vendo as rosas brancas, as gérberas amarelas, os antúrios vermelhos e tantas outras cores sobre a sepultura, meus olhos gestam lágrimas. Apesar da morte deixar tudo mais feio, as flores vibram e emanam a beleza da vida, que tem cor, tem perfume; e é tão sensível e efêmera.

Eis que a morte deflagra a coisa mais sofriente e mais bela que algum vivo pode concluir (sinônimo de terminar… acabar… matar… morrer): Apesar da morte, a vida continua – porque opostos se tocam.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.