Comédia romântica

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Para início de conversa, é bom que se tenha claro: o que temos são dois irmãos. O mais velho, a escuridão, o mais novo a luz, inferno e céu, negativo e positivo. Barroco e arcadismo.

Um dia o caçula disse para o mais velho, “ela ainda é apaixonada por você”. Durante ano e meio tentou convence-lo, quase que diariamente. Na primeira vez, o primogênito deu uma risada, dessas de canto de boca. Na segunda, também. Na terceira, fingiu-se de bobo.

Disse que não.

Que era impossível.

“Ela só pode me odiar e é bem capaz de, no caso de um reencontro casual, me ignorar ou me bater ou me xingar até aquela geração que nunca vai existir”.

Insistente, o mais novo tentou todo tipo de artimanha e argumento:

“Ela só está esperando que você tome a iniciativa, chame ela para sair, marque um encontro, comente o post do Instagram, anuncie na Gaúcha, na ZH*”.

Em todas, como se já fosse parte do ritual, o outro, primeiro riu, depois repetiu o mesmo discurso terra arrasada de sempre:

“Não, é impossível, ela me odeia, vai me bater, xingar, me dar um coice na canela”.

Em dezembro fará oito anos que o irmão mais velho e a morena se conhecem. Oito. Um tempão. O irmão enamorado da escuridão, do inferno, do negativismo, dos princípios barrocos, numa tentativa de redenção, escreveu sobre ela. Aqui ó. Deixou eternizado, para que não restem dúvidas, que o culpado era ele e mais ninguém.

Por mais clichê que possa parecer, o mundo deu centenas, talvez milhares de voltas fazendo questão de colocar ambos frente a frente outra vez. Oportunidade para se corrigir os erros. Fazer com que esse, mais velho, vire o rosto de lado e diga, sem medo:

“Pode me bater, eu mereço”.

Às vezes não é preciso entender os motivos. Vá lá, nem existam.

Há duas semanas, como faz todas quintas, o irmão mais velho desceu na parada costumeira do bairro Menino Deus, na capital gaúcha. Deu dois, talvez três passos. Ouviu a voz. A mesma voz de outrora, cheio de nés, guris e tchês. A morena riu. Pareceu cena de comédia romântica, só faltou abrirem os braços e ambos correrem ao encontro um do outro.

Por mais surreal que seja, o reencontro casual aconteceu. O mesmo que um dia o irmão mais velho considerou impossível. Os dois se abraçaram. Duas. Três Vezes. Abobalhado, o irmão mais velho quis fazer aquele momento durar mais e mais, talvez, por sentir que precisava ali, naquele instante, desfazer todos erros do passado. Ficou tão atordoado que é provável que tenha gaguejado. Quis ser o Mel Gibson naquele filme que ele ouve o pensamento das mulheres.

Por Deus.

Seguiu em frente, exibindo os dentes separados. Falando baixinho, como um louco:

“Ela não me odeia, não me bateu, não xingou, tampouco me deu um coice na canela”.

Quando soube, o irmão abriu um sorriso e, antes que tivessem se dado conta, comentou:

“Eu sabia, eu sabia”.

E depois, sem resistir à pergunta:

“E então, chamou ela pra sair?

O mais velho, como num passe de mágica, retraído outra vez, devolveu com toda escuridão e negativismo que lhe é peculiar, pois, aparentemente, é só que sabe fazer, teimoso, birrento, barroco:

“Não, ela ainda me odeia”.

 

*Respectivamente, emissora de rádio e jornal de maior circulação do RS

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.