Blind Melon – No Rain (Ripped Away Version)

Shannon Hoon foi mais um talento dos anos noventa cuja morte originou-se da dependência química. Devido a uma overdose de cocaína, faleceu em 21 de outubro de 1995. Até então, Hoon liderava o Blind Melon, banda que atingiu certo sucesso comercial com o single “No Rain”, graças ao famoso videoclipe da garota vestida de abelha.

Após a morte do artista, a banda soltou em 1996 uma coletânea intitulada “Nico”, em homenagem à filha do ex-vocalista, Nico Hoon. Esse compilado reúne algumas gravações feitas por Shannon Hoon e finalizadas pela banda, canções inéditas, versões alternativas de algumas já lançadas e até covers.

Uma dessas músicas chama-se “No Rain (Ripped Away Version)”, uma espécie de demo daquela que tornou a banda conhecida mundialmente. O que chama atenção nessa versão é que a áurea hippie e otimista da original é totalmente deixada de lado por um instrumental mais sombrio e emocional. Até a letra da canção, que é a mesma nas duas versões, pode ser interpretada de outra forma somente pelo fato da melodia estar mais melancólica.

Confira ambas abaixo:

Massive Attack na MTV + Cover do Bauhaus

Com mais de trinta anos de carreira e uma criatividade única, o Massive Attack é um dos conjuntos mais interessantes que surgiram na década de noventa. Misturando vários estilos diferentes e criando uma sonoridade inédita para a época, Robert Del Naja, Daddy G, Andrew “Mushroom” (que já saiu do grupo) e suas inúmeras parcerias atraíram atenção de milhares de pessoas ao redor do planeta.

No Youtube, o canal MASSIVETTACK.IE é um prato cheio para os fãs do conjunto britânico. O vasto acervo conta com apresentações ao vivo, entrevistas e vídeos dos mais diversos tipos sobre os pioneiros do estilo conhecido como Trip Hop.

A boa alma por trás desse projeto reuniu em um único vídeo CINCO apresentações do grupo na MTV europeia durante a década de noventa. A performance de “Karmacoma” é datada de 1996, enquanto as outras quatro canções (“Safe From Harm”, “Teardrop”, “Mezzanine” e “Inertia Creeps”) foram tocadas em 1998, época em que o grupo divulgava o disco Mezzanine, do mesmo ano.

Muitos fãs destacam a faixa “Teardrop”, devido à áurea angelical de Elizabeth Fraser. Mas, para mim, é a obscuridade de “Inertia Creeps” o destaque dessa coleção.

Sobre o disco Mezzanine, considero-o o melhor trabalho dos caras. E para comemorar o 21º aniversário do mesmo, o Massive Attack está em turnê pela Europa, apresentando o disco ao vivo e com algumas surpresas. Uma delas foi um cover excelente de “Bela Lugosi’s Dead”, clássico do gothic rock/post-punk do Bauhaus. O vocal soturno de Robert Del Naja encaixou bem na canção, enquanto o instrumental manteve-se fiel à original.

 

O tributo rendeu elogios até de David J. Haskins, baixista do próprio Bauhaus e que ficou encantado com o cover.

Você pode conferir aqui no blog um texto que escrevi sobre o Bauhaus e “Bela Lugosi’s Dead”. O link é esse.

 

Current Affairs

A sensação é de estar num ambiente tonalizado em preto e branco, gélido e movimentado. A música é tão crua em qualquer aspecto que sentir-se só em meio à multidão não é algo incomum. As batidas secas da bateria contribuem para tal sentimento de solidão. Joan, sem sobrenome, declama seus versos com emoção, trazendo vida àquele lugar.

Música é assim, inexplicável. Certas melodias, estilos, artistas ou batidas transportam-nos a lugares que nunca vimos na vida, nem sequer sabemos se existem ou não. Esse é o exercício que ela traz à nossa imaginação, levando-nos a construir cenários e personagens que fazem sentido nem que seja somente para nós mesmos.

Esse é o caso do Current Affairs, banda escocesa de Glasgow que cria um som post-punk direto da fonte. Não é, por exemplo, o Joy Division do “Unknown Pleasures”, já ciente de como queria ser, mas aquele que ainda polia e lapidava o seu som, como no EP “An Ideal For Living”, um ano antes do seu clássico. A guitarra alterna momentos de peso com outros mais eufóricos, como se ela possuísse um aspecto cortante e elétrico, girando e dançando em volta dos seus irmãos baixo e bateria, que mantém uma linha mais direta e coesa em quase todas as canções.

Vamos aos registros oficiais: um EP de 2017, intitulado “Object”, mais dois singles, ambos datados do final do ano passado: “Cheap Cuts/Let Her” e “Breeding Feeling/Draw The Line”. Não chega a dez o número total de canções lançadas pelo conjunto. Mas a avaliar sua ainda pequena discografia, o Current Affairs possui uma riqueza musical tamanha que, ao meu ver, os torna preparados para um disco cheio e mais encorpado.

Abaixo, em ordem cronológica, o EP e os dois singles para você ouvir à vontade e de graça.

 

Bela Marcha Fúnebre

Em 26 de janeiro de 1979, quatro jovens rapazes entraram em um estúdio na Inglaterra com a pretensão de gravarem algumas demos. Ao todo, cinco canções saíram do forno dessa sessão. Porém, mal saberiam eles que estavam iniciando um forte movimento artístico e que logo cravariam na história da música os seus lugares.

Assim inicia-se a história do Bauhaus, considerada a precursora do gothic rock e responsável pela primeira gravação do estilo, com o single “Bela Lugosi’s Dead”. Agora, quase quarenta anos após tal feito, os ex-integrantes da banda (extinta há 10 anos, entre hiatos e voltas) juntaram-se à gravadora Leaving Records e lançaram o EP “The Bela Session”, com todas as cinco faixas gravadas naquela sessão. O mais interessante: três delas jamais haviam sido lançadas oficialmente.

Impressiona o talento dos caras para uma primeira sessão em um estúdio profissional, ainda mais as linhas de guitarra de Daniel Ash. O cara comanda a guitarra como um verdadeiro domador, criando riffs abafados, sujos, ora hipnóticos e que grudam na cabeça do ouvinte, vide a canção ‘Boys”, em sua gravação original.

‘Some Faces” e “Bite My Hip” possuem a clássica estética tônica do gothic rock e do post-punk, com uma ambientação enclausurada (parecendo ecos) e o vocal rasgado de Murphy entonando os versos, acompanhado pelo ótimo e criativo instrumental da banda. “Harry” é a canção mais interessante do EP, afinal, não é sempre que se ouve um reggae (sim, reggae!) que parece ter saído das tumbas de um filme de terror. Uma honrável homenagem à vocalista do Blondie.

Mas o ponto alto mesmo está na faixa inicial e mais famosa do conjunto, “Bela Lugosi’s Dead”. Na primeira estaca da bateria, começa a melancólica hipnose que dura quase dez minutos, em um lamento destruidor sobre o ator que ganhou um status cult após interpretar o Conde Drácula nos cinemas, há muito, muito tempo atrás.

 

 

No Youtube, você encontra fácil versões ao vivo das canções e outras que saíram em singles e b-sides obscuros, mas esse trabalho acompanhado diretamente pelos membros do Bauhaus na produção vale a pena ser conferido. Um grande presente para comemorar quatro décadas de carreira com uma contribuição imensa à arte.

O blog dará uma pausa e voltará à ativa no próximo ano, mais precisamente no dia 07 de janeiro.

O Homem das Mil Vozes

Chega a ser clichê referir-se a Mike Patton como “o homem das mil vozes” dentro do cenário musical, devido ao imenso talento que possui e em como seu dom já atingiu os mais diversos públicos. Para quem já navegou do underground ao mainstream, indo e voltando por diversos estilos diferentes, Patton já tem provas mais do que suficientes para tal título.

 

Sua habilidade vocal impressiona. Patton consegue ir de um gutural raivoso para uma afinação mais melódica em questão de segundos, isso até na mesma música. Veja abaixo, em uma apresentação com o Mr. Bungle. Por volta dos dois minutos e vinte segundos é possível ter noção dessa transição vocal que ele faz. E o mais impressionante: ao vivo!

Depois que atingiu o estrelato à frente do Faith No More, lá no início dos anos noventa, o cara não parou mais: fundou vários projetos, fez parcerias com artistas dos mais diferentes níveis, passeou por diversos estilos e também trabalhou com trilhas sonoras de filmes e videogames. Também criou a Ipecac Recordings, uma gravadora que lança atualmente artistas que seguem sua mesma linha experimental.

Seu trabalho mais recente é o Dead Cross, que fundou com seu ex-parceiro do Fantômas, Dave Lombardo (ex-Slayer). Aqui o som é extremamente pesado, um hardcore punk bem rápido e agressivo, que soa ainda melhor (novamente) ao vivo. Veja.

Em 2013, tive o prazer de ver o Mike Patton ao vivo no Lollapalooza com o Tomahawk, uma de suas bandas mais interessantes. Veja abaixo a apresentação da canção “God Hates A Coward” (se vires um espantalho gigante e de óculos escuros balançando a cabeça, sou eu):

 

Seja com o Faith No More, Fantômas, Tomahawk, Peeping Tom, Lovage, Dead Cross, suas trilhas sonoras ou as participações com outros artistas, não importa: ele se entrega de forma total em qualquer trabalho. De todos os vocalistas vivos, o considero o melhor. Caso o leitor tenha curiosidade em conhecer melhor a sua discografia, comece pelo Faith No More, é o “mais acessível”.

 

Roger Waters em Salvador: rock e resistência

Passando pelo Brasil com a turnê Us+ Them, que pode inclusive ser a última de sua carreira, o lendário Roger Waters fez história. Aos 75 anos de idade e com o mesmo gás que esbanjava na criação e performance dentro do Pink Floyd, o cara fez seu show em um dos maiores palcos do mundo, desbancando até mesmo algumas estrelas do pop em suas apresentações. É só para quem pode, né? E ele pode muito.

Fazendo a alegria daqueles que amam as clássicas do Pink Floyd, Waters é indiscutivelmente um dos maiores músicos que o rock já teve (e ainda tem, graças a Deus). No Brasil, já passou por São Paulo (com direito a show em uma data extra), Brasília e Salvador. Ainda possui agenda para visitar Belo Horizonte (21/10), Rio de Janeiro (24/10), Curitiba (27/10), e Porto Alegre (30/10), fechando sua passagem majestosa pelo Brasil.

Em Salvador, colocado como alvo de duras críticas por conta de sua abordagem referente à política de nosso país, Roger Waters manteve seu posicionamento, que sempre foi contra o sistema, e encorajou aos brasileiros. Ao fazer uma homenagem emocionante a Moa do Katendê, que foi brutalmente assassinado por uma discussão política, reforçou o quanto tem de ativismo em suas veias. O show em Salvador aconteceu no último dia 17, quarta-feira.

“Eu queria apena tomar um minuto para relembrar um de vocês. Este é um grande artista local. Mestre Moa, que foi brutalmente assassinado após o primeiro turno das eleições presidenciais. Ele foi um grande exemplo para todos nós em espalhar amor, caridade, empatia e coragem” (Roger Waters)

Durante a homenagem, um telão de 70 metros de largura integrado ao palco exibiu uma foto do capoeirista de braços abertos. O público foi a loucura. Roger Waters pediu paz e chorou no palco.

Nós falamos com dois amigos que estiveram por lá e toparam compartilhar conosco suas impressões sobre esse show histórico e também sobre a abordagem política feita pelo ex-líder do Pink Floyd. Deise Machado, que é de Brasília, disse compreender o momento em que Waters alegou não saber muito do que se passava no Brasil, pois muitos de nós também não estamos entendendo, não é mesmo?

“O show foi espetacular, com efeitos sonoros e visuais que são característicos do Pink Floyd e do próprio rock progressivo. Detalhes que tornaram tudo muito lindo de se ver. E nós não precisamos necessariamente concordar com a posição política dele, mas dizer que ele não deve se posicionar é algo difícil, já que tanto ele como a banda fizeram isso durante toda a carreira”, disse Deise. E olhem só o carinho com os fãs, quando ele se permite estender as mãos e entrar em contato físico com todos ao redor.

Para Pablo Lucena, que também considerou o show incrível, Waters mostrou a que veio. “Ele é um artista comprometido com a visão de mundo. Em Salvador, ele foi grandemente acolhido e foi muito bom ver seu posicionamento num momento tão crucial como o que estamos vivendo em nosso país”, contou.

A Dávila Kess também esteve no show e nos trouxe imagens maravilhosas e que nos deixaram com muita vontade de fazer parte de tudo. Confira algumas na galeria!

“Eu admito: desliguei o celular, a mente, todas as questões da vida e me entreguei, de corpo, alma, coração. Todas as células do meu corpo estavam entregues a todas sensações que cada nota reverberaram em mim. Depois de algumas horas do show, ainda permaneci anestesiada, extasiada e, sem dúvida, Roger Waters proporcionou neste dia 17 de outubro, uma das experiências mais fascinantes desta minha jornada. O show ainda vai correr algumas capitais, meu conselho: junta o dinheiro que tem e vai, se não tiver, pede emprestado, quebra o cofrinho, mas vai. Você não vai se arrepender. Ah, e hoje eu entendo porque tantas pessoas tatuam #pinkfloyd em seus corpos, é insano mesmo. Surreal!”, disse Dávila.

Se você não sabe quem é Roger Waters (o que nós achamos que seja muito difícil), te ajudamos a entender.

George Roger Waters é um dos fundadores da banda de rock progressivo/psicodélico Pink Floyd, onde atuou como baixista e também vocalista. Foi letrista, compositor e líder conceitual do grupo. O músico deixou a banda em 1985, mas estima-se que até 2010, o grupo tenha vendido mais de 200 milhões de álbuns no mundo todo.

É estranho que ainda tenhamos de explicar às pessoas qual o viés das músicas do Pink Floyd, mesmo depois de tantos anos ocupando o topo de paradas musicais. Uma história escrita pelo pensamento que busca ir contra o sistema imposto pela maioria das autoridades, algo que vem nos assombrando nos últimos tempos. Ao “aderir” à hashtag #EleNão, Roger Waters reforça aquilo que muitos de nós esquecemos: como amar. Sejamos humanos. Sejamos como devemos ser. Resistam!

Largatos: a quase primeira banda de rock de LEM

Em 1999 os aproximados 18 mil habitantes — talvez, nem isso — do povoado recém rebatizado de Luís Eduardo Magalhães guardava certa dúvida sobre o que a mudança de nome viria a representar num curto espaço de tempo. O processo que culminaria com a emancipação encontrava-se num momento crucial. O então novo distrito precisava provar que tinha condições de seguir independente de Barreiras. Enquanto o processo de convencimento de ACM seguia seu curso em Salvador e Brasília — a emancipação só se consolidaria no ano seguinte — na esquina da Rua Paraíba com a Avenida JK era instalada a Fibracan, empresa especializada em consertos em fibra de vidro e que viria a se tornar o “quartel general” de dois irmãos (opa, o mais velho deles, este que vos escreve) na faixa dos 17 e 20 anos, oriundos do interior do Rio Grande do Sul.

No afã de ter o que fazer como diversão decidimos montar a própria banda. Uma viagem à Brasília foi suficiente para aquisição dos instrumentos que faltavam: uma bateria e um contrabaixo. A guitarra tinha vindo junto no porta malas do velho e saudoso Fiat Prêmio. A espinha dorsal do grupo ficou em família, eu na bateria; meu irmão, Saymond, na guitarra e vocais e nosso primo, Guto, ou, Gutão, no contrabaixo. É preciso destacar que nossa experiência remota com a música tinha duas vertentes: uma bandinha de garagem de heavy metal que tivemos no auge da adolescência, no meu caso, como vocalista; e uma possível herança genética, oriunda do nosso avô, experiente músico de baile que, entre outras peculiaridades tocava um contrabaixo amarelo sem trastes e animava qualquer roda de amigos, ou não, com sua gaitinha de boca.

Assim, com parca experiência e técnica, a Largatos fez seus primeiros ensaios.

 

A barulheira chamou atenção — claro, ensaiávamos de porta e janela aberta. Em pouco tempo, nossas tentativas de produzir música transformaram-se em pequenos eventos, com muita gente espiando da porta ou da janela do escritório da Fibracan, entre eles, os primeiros fãs, jovens que, como nós, ansiavam por algum tipo de lazer que o distrito não oferecia. Não tardou para o primeiro acréscimo na formação da banda acontecer. Fabinho (que depois veio a fundar a Unidade 8), assumiu a segunda guitarra, transformando a banda num quarteto. A essa altura, o repertório da Largatos era um misto de versões de clássicos do rock nacional, os primeiros esboços de canções autorais, entre elas “Vendaval”, “Poeta Medíocre”, “Bibêlo”, “Quatro Olhos” e “Caos Social Injetável”, além de trechos de músicas de bandas gringas como Black Sabbath — o solo de “Bibêlo” era descaradamente parte do solo de “Iron Man”, The Doors, Led Zeppelin, Beatles, etecetera.

Quando a banda chegou a três, quatro meses ensaiando as mesmíssimas versões muitas vezes aproveitando o horário de almoço, a vontade e o desejo de fazer o primeiro show — não necessariamente nessa ordem — fez a banda, pela primeira vez, colocar os instrumentos do lado de fora e ensaiar abertamente, tornando visível e convidativa a aproximação de mais e mais curiosos. Como um evento teste, queríamos ver como as coisas soariam, talvez, sentir se estávamos ou não prontos para um show de verdade. Acontece que locais para apresentações musicais, à época, eram — imagine Luís Eduardo Magalhães há quase vinte anos atrás — escassos e muitas vezes, só a boa vontade alheia poderia tornar algo do tipo possível.

O centro da nova cidade girava em torno da Igreja Matriz e da Associação dos Moradores do Mimoso do Oeste (AMMO), onde praticamente todas as festas, almoços, confraternizações, bailes de debutantes e velórios aconteciam. Numa dessas festas, a Largatos foi convidada para seu primeiro show, como atração secundária da atração principal da noite, a banda de pagode Os Bocas, de Barreiras. Apesar de uma passagem de som desastrosa — inexperiente, sofri para adequar o kit da bateria ao meu tamanho e jeito de tocar — o anúncio de que a atração principal faria um intervalo no seu show fez com as atenções se voltassem para nós. Até poucos meses antes, eu nunca tinha tocado bateria na vida. Apostava no feeling, na lógica do bumbo ditar o ritmo e precisar ser tocado antes da caixa. 

Lembro que numa rápida reunião antes de irmos para o show — decidimos fazer o trajeto entre a Fibracan e a AMMO a pé — sugeri começar com uma espécie de grito de guerra, que acabou se tornando marca registrada de todas apresentações seguintes da Largatos. Não queríamos apenas plugar os instrumentos e começar a tocar o nosso set list, o grito de guerra soaria como uma injeção de adrenalina para que a gente começasse (entre aspas) aquecidos. Prontos. Assim, numa madrugada qualquer do ano em que o mundo não acabou como queriam as profecias, do fundo do palco cimentado da AMMO, sentado na banqueta da bateria, gritei a pleno pulmão os primeiros…

 

Largatos, preparados!

Após as tradicionais três contagens com a baqueta demos início ao show. Quem era presença constante nos nossos ensaios foi para a frente do palco, quem não era — de certo modo — abriu espaço no meio do salão para as rodas que se abriram. O palco cimentado de pouco mais de meio metro de altura não foi empecilho para os moshes. Aliás, quisera tivéssemos sido um pouco mais sistemáticos e contado quantas vezes aquele palco recebeu moshes no auge das festas e shows lá realizados.  As quinze músicas que fizeram parte daquele set, provável tenham aberto a chancela e preparado terreno para todo frenesi dos anos seguintes. Das que minha memória consegue lembrar, além das autorais, aquele set contou com versões para “Eu Nasci Há Dez Mil Anos” e “Canceriano Sem Lar” de Raul; “Eu Sei”, da Legião Urbana, “Malandragem”, chupada da versão da Cássia Eller, entre outras. Terminamos, sob ovação. Mantivemos a rotina de ensaios e, principalmente, de composição. Em pouco tempo, o repertório da banda passou a contar, em sua maioria, com músicas autorais como as novas “Garotos Selvagens”, “Leve Desespero” e talvez a melhor de todas, “Castigo”, que infelizmente não teve nenhum registro de áudio ou vídeo.

O segundo show oficial da Largatos, novamente na AMMO, teve como cenário uma festa de gosto duvidoso, em que o palco foi transformado numa selva e entre as atrações musicais (nós e um cantor chamado Tony Moreno) garotas desfilavam de biquíni e com camisetas molhadas. Literalmente, tocamos quase que camuflados entre samambaias. O piso do palco estava encharcado e o risco de choque era iminente. Terminamos o show aliviados. Nenhum de nós foi eletrocutado, ou morreu, ou se transformou num mártir.

 

MUDANÇAS E MAIS SHOWS

As mudanças de formação foram várias. A primeira delas, a saída de Fabinho que deu lugar ao saudoso Fio (que hoje olha por nós do outro lado), que além de violão e guitarra fazia os vocais de apoio e até baixo tocou na banda, quando da saída do Gutão. Outros que integraram a Largatos até o encerramento das suas atividades foram Rogers, no baixo, e Michel, teclado e violão.

Entre 2000 e 2004 fizemos algumas apresentações nos Domingos Culturais na Praça Matriz, com destaque para a vez em que o pedestal de um dos pratos da bateria despencou durante a execução de “Rock n´Roll” do Led Zeppellin. Em 2001, no Agribusiness Center, dividimos palco com uma banda cover do Creedence Clearwater Revival, vinda de Brasília, num dos shows mais marcantes dos primórdios da jovem Luís Eduardo Magalhães. Em 2002, numa das primeiras edições da Festa da Colheita — onde hoje estão a Câmara de Vereadores e o Fórum — um bêbado Fio, mandou abraço para os seguranças que eram quase maioria. Fomos obrigados a começar muito cedo, antes mesmo das 23h e por isso, a não ser nossos fiéis seguidores apenas os seguranças testemunharam o show. Infelizmente, a banda fez uma única apresentação em Barreiras, no Cais e Porto, num show de pouco mais de vinte músicas e totalmente acústico.

 

O QG DA GALERA E A ORIGEM DO CHÁ DAS CINCO

Em dado momento, a Fibracan transformou-se em atração e ponto de encontro. Uma espécie de QG da galera rock de LEM. Tanto que virou rotina colocarmos os instrumentos do lado de fora quase todos fins de semana. O público era cativo, um mini ramp de skate era atração e um freezer recebia o pagamento para participar do festerê: uma caixinha de cerveja ou o que fosse beber. Aqueles ensaios abertos deram origem ao Chá das Cinco, o clássico e inesquecível festival que anos mais tarde teve edições repaginadas e com presença de bandas até de outros estados, caso da Identidade em 2015 e uma, com direito a homenagem ao nosso pai, Aaron, que nunca pôs empecilho algum para todas maluquices que fazíamos, transformando-se num tiozão e as vezes até num segundo pai para muitos que preferiam passar o tempo na Fibracan. A Largatos não resistiu ao tempo. O sonho de furar a bolha e tornar todas aquelas canções conhecidas do grande público não vingou. O projeto de gravação do primeiro CD fracassou e o fim, acabou sendo o caminho inevitável.

 

AS CRIAS DA LARGATOS

Curiosamente, a Largatos deu origem a duas bandas que marcaram época em LEM: a Lobos da Estepe, formada pelos ex-integrantes dos Químicos com meu irmão no vocal e guitarra e a Unidade 8, a qual tive a honra de fazer parte da formação original que gravou o “Fobia” em 2004 e talvez tenha sido a banda local que mais perto de furar a tal bolha chegou. No entanto, estas são história para outra oportunidade. Uma das últimas aparições da Largatos se deu no I Encontro de Bandas de Rock, realizado na quadra de areia da AMMO, numa época que a cidade chegou a contar com pelo menos seis bandas ativas e o mais importante, parceiras em todos sentidos. A formação daquele show contou com Adilson Vieceli, integrante da Falso Sepulcro — a verdadeira primeira banda de rock do então povoado de Mimoso do Oeste, isso lá nos idos de 1996 e 1998. Histórico e daí do “quase” usado no título. No berço da Largatos foi construído um estúdio que ajudou muitas bandas na primeira metade dos anos 2000 e onde hoje bandas de toda região se apresentam, pois, é justamente onde está o palco do Chá das Cinco Pub. Na minha recente passagem por LEM, talvez, devia ter feito o teste, pois, quem sabe, ao encostar o ouvido no piso do pub ainda seja possível ouvir o velho grito de guerra da Largatos ecoar.

Preparados?

Entrevista com a Banda 100 Nome: rock e forró podem andar juntos sim!

Quem conhece a Immagine sabe que nós somos adoradoras da boa música e das boas bandas e que sempre buscamos trazer para os nossos holofotes quem faz parte desse universo. Hoje chegou a vez da Banda 100 Nome. Sim, 100 nome. Os integrantes da banda se conheceram em LEM e começaram a tocar na cidade, mais especificamente no Pub Chá das Cinco (outro lugar que amamos demais) e desde então, seguem fazendo shows e cantando aquilo que nós também amamos: rock, baião de dois e forró pé de serra.

Integrantes:

Alam Romero – bateria / Santa Maria da Boa Vista-PE
Luiz Junior – guitarra / Catolândia-BA
Will Porto – baixo / Barreiras-BA
Rodrigo Motta – vocal / Barreiras-BA

Os quatro se conheceram através da música. Todos tocavam em suas respectivas bandas e sempre se encontravam ou até mesmo faziam projetos juntos. A ideia inicial surgiu da vontade de fazerem um tributo à Charlie Brown Jr e, a princípio, eles se uniram para fazer apenas um show. Foi assim que também surgiu o nome da banda: 100 Nome. Para eles, não havia necessidade de um nome para uma banda que só faria um show, e então lá foram os 4 e mais alguns parceiros para a fatídica noite que começou com a ideia de ser apenas um tributo a Charlie Brown Jr e que terminou com um próximo show marcado. A banda homenageada da vez seria Engenheiros do Hawaií. E assim nasceu a 100 Nome.

Para eles, tocar em LEM é muito bom, tanto que eles já consideram a cidade como o quintal de casa. “Nos sentimos muito acolhidos e já é tão natural…”, conta Will. Uma das inspirações da banda é a própria Charlie Brown Jr, que mesmo sem querer moveu o início da carreira da 100 Nome. “Outra banda que também gostamos muito é a Legião Urbana”, diz Luiz. Legião, inclusive, é a dona de uma das canções preferidas da banda, que ama tocar “Dezesseis”. “Nós sempre tocamos essa da Legião e gostamos muito, tem uma letra muito fod#”, conta Luiz.

Viver de música

Hoje é praticamente um sonho para a maioria das bandas viverem só de música. Isto se deve a diversos motivos, como necessidades financeiras, tempo, valorização cultural, entra tantos outros. Escolher a música é algo corajoso  nos dias de hoje. Enquanto tudo é muito comercial, a 100 Nome segue a linha de fazer o que se ama. “O significado da música para nós é terapia, diversão, loucura e também o ganha pão. É prazeroso fazer música, uma sensação incrível!”, é o que conta o Alam.

E talvez seja por isso que eles gostam tanto de tocar em LEM, porque, segundo eles mesmo, o público da cidade é muito receptivo quando o assunto é reconhecimento e valorização, tanto financeira quanto cultural. “Apesar de sermos um banda barreirense, a maior parte dos nossos show foram realizados em outros locais”, contam.

O gosto pelas músicas autorais existe, mas as composições ainda não se concretizaram. Eles contam que a banda começou mesmo com a ideia de fazerem versões de músicas já conhecidas e que os integrantes gostam de tocar. “Nós buscamos tocar aquilo que nós gostamos de ouvir, e temos a sorte de encontrar muitas pessoas que também gostam do que tocamos. É isso que nos faz gostar muito do público de LEM que, por uma feliz coincidência, gosta da nossa música e do nosso gosto musical”, contam.

Para os integrantes da banda, não há nada melhor que receber uma bela salva de palmas do público e serem valorizados, como sentem que são aqui em LEM. “Isso já é um sonho. Nossa ambição é de sempre explorar lugares novos e apresentar nosso trabalho, sermos reconhecidos por aí e ganhar dinheiro… é sempre bom!”, conta o Alam.

E o futuro?

Com a urgência do mundo atual, as pessoas pensam no hoje e no amanhã ao mesmo tempo. Os meninos da 100 Nome pensam, claro, em evoluir, mas também valorizam muito o momento que vivem. Preocupados em doar o melhor de si para a música, sabem que podem ter um futuro brilhante, pois são merecedores e batalhadores, mas gostam mesmo do que vivem hoje.

Temos uma formação muito forte e, apesar das dificuldades e dos projetos paralelos de cada um, ainda vamos crescer. Temos apenas 1 ano de caminhada e acreditamos que futuramente podemos dar certo além de tudo o que vem acontecendo”

Uma frase que definiria a Banda 100 Nome?

““Um projeto displicente que deu certo”. Na nossa história tudo aconteceu de maneira muito natural, bem fácil. Nós nunca brigamos, as ideias de músicas para compor repertório sempre foram muito bem aceitas por todos. Isso faz com que tudo deixe de ser trabalho e se torne a nossa diversão”.

Rural na estrada e na melodia. Conheça Guito Show e sua proposta de promover o campo Brasil afora.

Se você perguntar por Diogo de Brito Sousa, pouca gente vai saber de quem se trata. Mais conhecido por Guito Show, Diogo traz o apelido desde a infância, durante as clássicas peladas no interior de Minas Gerais. “Eu era bom de bola. O Maradona era Dieguito, eu virei Dioguito e depois ficou só o Guito”, relembrou o músico durante entrevista – segundo ele, a primeira da sua vida – para o Blog da Immagine em Luís Eduardo Magalhães. Guito aportou com sua Rural – veículo utilitário produzido pela Willys Overland e depois pela Ford, nas décadas de 1950, 60 e 70 no Brasil – para dois shows: na quinta-feira, no Pub Chá das Cinco e, na sexta, em um evento privado da Maxum Case. “Essa é a segunda vez que volto à LEM neste formato Guito Show. A primeira foi neste mesmo ano, durante a Bahia Farm Show. Inclusive, coincidiu com a greve nacional dos caminhoneiros, que serviu de inspiração para criar uma música nova na estrada”.

Boa pinta, com sotaque bem mineiro, típico de quem vive e gosta do campo, e de conversa fácil e ritmada, Guito coleciona amigos nos lugares para onde viaja. Por incrível que pareça, ele não foi daquelas pessoas que nasceram tocando um instrumento. “Meu avô materno, Zé Maria de Brito, era músico, um boêmio autêntico de Minas Gerais. Mas ele nunca me viu tocar. Descobri a música quando ele morreu e herdei os instrumentos dele”, contou. Foi mais ou menos nessa época que ele pegou gosto pelas viagens. Aos 18 anos, foi morar na Dinamarca por quatro meses, até descobrir o que queria fazer da vida. “Terminei o terceiro científico e rumei pra lá. Minha dificuldade sempre foi gostar de tudo. Lá fora é bem diferente. Você tem um vocacional muito forte. As pessoas te dizem: vai viver primeiro, vai viajar e descobre o que você quer fazer. Tinha uma tia fazendo pós-doc, então aproveitei a oportunidade. E foi assim, sem falar inglês, que começou a minha aventura musical, de mochila e violão nas costas, e uma gaita na boca. No mochilão, sozinho, é que tive que garrar nos chifre do boi mesmo, tocando nas ruas na Dinamarca. Me propus o desafio de sobreviver por mim mesmo”.

Autoditada, usando – na época – aqueles livrinhos de cifras, aprendeu a tocar. E hoje conquista fãs e amigos pelo país soltando sua voz enquanto faz uma salada mista de violão, viola, gaita, serrote (Saw) e mala-bumbo. “Eu falo que o talento é muito bom, mas a teimosia é muito melhor”. Aliás, cada instrumento que compõe seu show tem uma história. A cabeça de Caracu foi um presente de Gabrielzinho das Laranjeiras, durante uma cavalgada de 8 dias. A mala, que virou bumbo, é da família há muito tempo. O serrote dinamarquês, que é parte das suas composições, é da época que morou por lá. O microfone, produção própria, e a Rural – veículo que o leva para onde quiser e ainda serve de palco para seus shows. “O Guito Show sempre foi rural. Cresci na roça, fazendo muita cavalgada. A Rural é original de chassi e lata, mas a mecânica é toda Hilux. Meu irmão que me deu essa ideia. Tem um ano que comprei e ela ainda tá em formação. Agora já tem tenda, palco, funciona como motor home, tem um kit pesca. Arrumei também um gerador, agora pode me largar em qualquer lugar que o som sai” conta, orgulhoso.

Sua ligação com o campo vem desde a infância, mas também já serviu de profissão. Agrônomo, atuou na área por 8 anos, período no qual morou em várias cidades do Brasil, inclusive em Luís Eduardo Magalhães.  “Trabalhei em Barretos, São José do Rio Preto, fui para o mercado financeiro, abri um escritório, fui pra Belo Horizonte, montei um escritório, cresci, vendi, fiquei rico, fiquei pobre. Já vivi de tudo um pouco”. Foi na ocasião do mercado financeiro que veio pra LEM. “Abrimos uma mesa na Cooproeste com a intenção de criar um projeto educacional financeiro e de gestão de risco. Foi pouco tempo – um ano em 2010, mas me apaixonei por aqui. Depois, voltei novamente em 2012. Nessa época fui pro EUA e, nessas andanças, voltei com a cabeça mais empreendedora. Na sequência fui assumindo cargos cada vez mais executivos, morando na cidade grande, até acabar trabalhando na Coca-Cola”.

Os 30 costumam ser uma idade de transformação. E não foi diferente com Guito. O estilo de vida Guito Show começou a se solidificar há três anos, quando abandonou tudo e se dedicou ao campo. “Eu acho que a vida não se mede por tempo, mas por vida vivida. Vida vivida é conhecimento adquirido, experiência. A partir do momento que você para de conhecer coisa nova, você não tá mais vivendo, tá esperando. Esperando a morte chegar. E nessa a gente vai escrevendo o livrinho da vida. Percebi que estava perdendo vida vivida. Era o meu auge financeiro, mas também foi quando eu tava mais pobre. Eu tenho umas filosofias na cabeça, sabe? E eu tive pra mim que rico não é quanto você tem, é quanto você gasta, né? Rico é simplesmente gastar menos do que ganha fazendo tudo que se gosta. Então, é muito mais dependente de quando você gasta e do que você gosta, do que quanto você ganha. Felicidade é auto reconhecimento mais o reconhecimento das pessoas que você ama. Simplesmente. Felicidade tem muito mais a ver com o que você quer, com o que você sonha, e você se auto reconhecer. Ficar orgulhoso de você mesmo. Se encontrar é o mais importante. E você se encontra onde? Sozinho. É quando você viaja, principalmente sozinho, é quando você está com seus amigos. Você finalmente descobre o que quer. Então você tá encontrando o caminho.”

Hoje, Guito mora em Araxá/MG com a família, dá aula de horticultura para a creche do seu filho toda quarta-feira, durante a semana se dedica a sua startup e, no final de semana, ao Guito Show. “Não tive uma infância difícil. Sempre tive uma boa escola. Sempre tive alguém para tomar conta das minhas coisas. Foi depois de velho que assumi de vez a responsabilidade por mim. Viver numa casa onde eu lavo meu prato e arrumo minha cama; levar meu filho na escola, fazer a comida dele e a minha. Já abri 5 empresas, fechei 5. Tenho uma startup de ingredientes frescos, com o intuito de vender produtos direto dos pequenos produtores. Essa é uma tendência que se chama Slow Food. A ideia é nos reaproximar do alimento. As pessoas da cidade não tem mais noção do que é o produtor rural. Essas minhas viagens servem também como um garimpo dos produtos”.

Na música, Guito está desenvolvendo seu estilo próprio, através das suas andanças e tendo como referências músicos como Tião Carreiro, Almir Salter, Renato Teixeira e Dave Matthews Band. Segundo ele, depois de aprender inglês, foi com Dave que, pela primeira vez, degustou uma poesia em forma de música. Entre seus planos, estão lançar uma turnê pelo Brasil, Guito Show – Momentos Raros, colocar algumas músicas próprias no Spotify e, mais pra frente – quem sabe, lançar um documentário ou até mesmo um livro. Sua divulgação acontece através do boca a boca dos amigos e pelas redes sociais, como Youtube e Instagram (@guitobrasil tem mais de 28 mil seguidores). “Meu objetivo como Guito Show é promover o campo. É promover a vida simples. Mostrar que é muito simples você ter isso. Parte do princípio, primeiramente, de não depender de ninguém. De você se auto reconhecer”.

Um pouco músico, um pouco agrônomo, um pouco filósofo, um pouco mochileiro. Guito é um rapaz que se não encontra – nem quer se encontrar – em pré-definições. Como ele mesmo diz, vai construindo sua vida vivida aos poucos e sempre aberto às surpresas que o destino há de trazer.

Para conhecer Guito Show, acesse suas redes sociais:

Instagram @guitobrasil / Youtube

Por Mônica Zanotto

Gravidade

Há algumas semanas, o American Park se despediu de LEM e foi levar sua diversão para outra cidade. Com isso, aquela praça dos três poderes voltou ao seu marasmo habitual. Agora, bate uma tristeza passar pela rotatória da mesma, ao lembrar os bons momentos.

Foi a primeira vez que fui a um parque e participei das atrações. Gostei tanto que, ao todo, fui quatro vezes. A sensação de desafiar o medo da morte, do desconhecido e a gravidade me fez muito bem, algo que não sentia há bastante tempo.

É incrível como nosso cérebro resolve travar batalhas contra nós mesmos nesses momentos de apreensão. Ao trancar o banco de um brinquedo giratório que, como um pêndulo, balança a uma altura muito, mas muito alta, os pensamentos que invadiam minha mente eram os piores possíveis. “Isso vai cair igual naquele filme” ou “meu banco vai se abrir e vai acontecer uma tragédia”, e só piorava. Porém, ao repetir o brinquedo mais duas, três vezes, o medo dava lugar à euforia, à sensação de sentir-se vivo. Foi aí que eu compreendi que sentir medo é se sentir vivo e que é preciso encarar o desconhecido.

Posso levar isso para muitas situações da minha vida, e vou além: muitos dos meus erros ou falhas se derivam de não encarar o desconhecido. No campo da escrita é o exemplo mais claro. Muitas idéias que tenho poderiam ser mais bem desenvolvidas (muitas delas não chegam nem ao papel) justamente por não colocá-las em prática e trabalhar para torná-las algo concreto. Mas o fato de elas serem tão boas no campo da IDEIA me causa receio em colocá-las no campo do MATERIAL, por medo de não conseguir desenvolvê-la o suficiente. Ou seja, falta encarar o desconhecido.

Esse assunto mesmo permaneceu no campo da IDEIA por muito tempo e só agora resolvi desenvolvê-lo.

Foi preciso me arriscar contra a gravidade, sentir muito medo para aprender a encarar o desconhecido. Agora, só falta colocar em prática. Mas isso eu deixo para uma próxima hora.

A princípio, sigo como Maynard James Keenan: eu escolho viver.