Cãoterapia

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Nunca fiz muita questão de ter um bicho de estimação. No meu TOC por limpeza, encontrar pêlos pela casa era algo inimaginável. Da mesma forma, perder tempo com passeios caninos não era algo que minha agenda comportasse. Até que uma cachorrinha entrou na minha vida e comecei a passar por um intenso processo terapêutico, que chamo de cãoterapia.

O início do processo se deu quando, com umas lambidas e pulinhos, ela conquistou minha confiança. Desde então, passou a ter credibilidade de alguém da família, como o próprio nome científico já indica: canis lupus familiaris. A partir daí, cada dia tem sido um aprendizado para mim, enquanto tento me iludir e acreditar que sou eu que adestro ela.

Ela é a dona da casa. Quando chego sempre está pronta pra me receber. Tenho aprendido com ela que faça chuva ou faça sol, deveríamos sempre receber quem amamos com uma alegria ímpar (claro que ela exagera um cadinho e até faz um pipi de felicidade – o que no caso humano é dispensável).

Na cãoterapia passeio é coisa séria para o canis e para o dono. Farejar, olhar, caminhar sentindo a brisa da manhã ou da tarde ajudam a gastar energias e a relaxar do stress. Tenho certeza de que quem volta mais aliviado do passeio sempre é o dono.

No quesito simpatia, minha cachorrinha também esbanja talento. Preocupo-me com tamanha cordialidade, jamais deixaria tantas pessoas me acariciarem (será que o “bloqueado” sou eu?). Engana-se quem pensa que ela não é seletiva. Há pessoas que ela passa longe, ensinando-me que afastar-se de quem não se vai com a cara é um bom mecanismo de defesa. E se for preciso até rosna. Porque um simples rosnado resolve o problema sem a necessidade de morder.

Invejo sua capacidade de dormir (às vezes até de olhos abertos) em qualquer canto da casa, qualquer sombra, qualquer hora do dia… Todo momento é uma oportunidade para tirar aquela sonequinha… E quando levanta, é só espreguiçar que tudo está em ordem. Talvez se me espreguiçasse mais, minha coluna doesse menos.

A transparência canina também me fascina. Quando o cão está feliz, seu corpo fala: São pulos, rodopios, lambidas e chacoalhadas de rabo. Essa felicidade acontece porque um canis nunca pretende ser o que ele não é. Eu nunca vi ela triste, só sei que quando eu estou triste ou magoado, ela fica por perto, em silêncio, oportunizando sua companhia para me confortar. Ela é muito leal. Mais leal que muitos humanos por aí.

Quanto mais convivo com minha canis, mais tenho a sensação de que o bicho sou eu.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.