Camiseta, bermuda e tênis

Uma leitora me confidenciou que não leu a crônica publicada semana passada. Disse que começou a leitura duas vezes, mas não foi até o fim. Em geral o ser humano tem medo da ação que o tempo provoca sobre si. Ela não leu por isso. Tem medo. Prefere não pensar e até se abster de discussões sobre o envelhecimento, talvez, justamente por não ter a receita ou poder algum que a mantenha eternamente jovem.

Que fique claro: ninguém tem.

Eu, por exemplo, se pudesse, usaria camiseta, bermuda e tênis todos os dias, como faço desde a adolescência. Sempre que me olho no espelho não me vejo com a idade que tenho, embora, não faça coisas que fazia com naturalidade até pouco tempo atrás e não tenha mais interesse pelas orgias tradicionais daquela fase da vida, entre a adolescência e a maturidade.

Camiseta, bermuda e tênis, muito embora, estejam distantes de representar uma tentativa de me manter jovem por mais tempo, são parte de uma característica pessoal preservada desde que havia madeixas em quantidade suficiente a cair pelos ombros da minha — hoje — calva cabeça.

O fato é que existem velhos em corpos de jovens e jovens em corpos de velhos. Eis o ponto, ainda que não considere estar nem de um lado nem de outro.

Há claro, quem possa preferir uma mesa de cirurgia ou a rotina de uma academia, mas, seja onde for e estiver, nem um nem outro será capaz de mudar ou intervir na ação do tempo.

Com algum esforço, poderá minimizar os impactos devastadores que cinco ou dez anos produzem no seu corpo e organismo, mas, jamais, irá estancar o tempo de modo a gozar de uma juventude plena e, por isso mesmo, inexistente.

A intenção é retardar a passagem dos anos e mesmo com rugas e cabelos grisalhos a se perder de vista fazer parte deste culto a juventude, perpetrada entre nós, seres humanos, até subliminarmente, quando nos deixamos influenciar pela mania de novidade excessiva que a tecnologia nos impõe e exige. Pois é preciso, para ser parte desta sociedade atual, estar conectado ao novo e por novo, como sua própria definição sugere, lê-se o que é jovem.

Daí, todos quererem ser e se manter jovens.

O tempo todo.

Talvez a leitora que se recusou a ler a crônica da semana passada queira apenas viver sem ter necessariamente que se preocupar com o dia de amanhã. Não está errada, mas também está longe de estar certa. O amanhã pode ser implacável e pensar nele, muito provável, seja uma necessidade, independente, da discussão pairar sobre o fato de não nos darmos conta que o tempo está passando e estamos ficando velhos ou sobre já estarmos velhos e não existirem locais apropriados para este público passar o restante de suas vidas.

O cerne da questão e, por isso vou repetir a mesma frase usada semana passada é: “A gente planeja tudo mas nunca pensa no que vai fazer nos últimos anos de vida”.

É bem provável que eu vá continuar usando camisetas com as capas dos discos do Rush, bermudas de bolsos largos e tênis ou alpargata sem meia pelos próximos cinco, dez ou quinze anos.

É muito provável também que nem eu, nem você ou qualquer um que já tenha passado dos 30, vá entender o que se passa na cabeça de quem haverá de ter entre 18 e 24, daqui cinco, dez ou quinze anos, mas, mesmo assim, vamos querer se manter jovens e descolados.

Ter medo é natural. Agora, precisamos saber lidar com esse medo para não postergar para os acréscimos da prorrogação o pensamento sobre o que iremos fazer nos últimos anos de vida.

Por mais clichê que seja, o tempo passa e não volta pra ninguém.