Botas vermelhas

By  |  0 Comments

Acompanhava o entra e sai do estande da Prefeitura Municipal na Bahia Farm Show, com atenção voltada para os delicados pés das moças. Sempre fui fã de pés femininos. Tive uma namorada que me proibia de olhar para seus pés, e fazia o possível, para que eu não tivesse nem três segundos de regozijo observando seus dedinhos rechonchudos. Era como se ela detestasse uma parte do próprio corpo e desejasse que ele não existisse. E eu só era autorizado a amá-la do tornozelo para cima.

Sério, nunca entendi.

Venerar o pé de outra pessoa, aparentemente, não é nem nunca foi uma atividade considerada normal. Tudo bem, tudo bem. É incomum. Eu que o diga. Aliás, é muito mais fácil, que ao descobrirem seu suposto fetiche por pés, estejam eles desnudos ou enfiados num par de All Star branco como um papel sulfite, sejas enquadrado e, de pronto, catapultado ao time dos rejeitados, dos anormais, dos estranhos.

Se queres mesmo saber, eu — particularmente falando — tô nem aí!

Naquela ocasião, minha atenção não estava voltada para os pés de unhas feitas e tatuagens de florzinha a percorrer o limite do dedo mindinho e o tornozelo, mas, para o calçado escolhido para a ocasião, isso mesmo, no singular, pois, a quase unanimidade do público feminino — que bem me lembre — tinha por opção o uso de botas, de todos tamanhos e gostos, desde as que mal cobriam a canela, àquelas que triscavam na rótula do joelho; umas com zíper, outras sem zíper; umas feitas de couro, outras de oncinha ou que apostavam na imitação da pele de uma vaca; haviam também botas de cor única, pretas, marrons, verdes ou extravagantes, como uma, de cor vermelha mergulhada no verniz.

Regozijo pleno. Raras vezes me deliciei tanto como aquela tarde.

Não me importa se daqui a pouco serei taxado como louco, tarado, machista, ou alguma coisa que me faça querer esquecer aquele desfile quase privado ou procurar tratamento psicológico para me curar ou facilitar meu caminho para a salvação eterna. Talvez, eu nem seja tão anormal assim, ora bolas, que mal há em considerar mulheres de botas um charme?

De novo: que mal há?

Hein?

Provável que eu continue alimentando aquela lembrança justamente pela tolice que ela carrega. Não sou uma besta selvagem que não pode, em hipótese alguma, ver uma mulher ou um coletivo de mulheres de botas a saracotear por aí. O riso que me escapa dos lábios ao ver uma mulher usando botas numa feira agrícola ou por conta do inverno rigoroso que acomete nesse exato momento o sul do país, não é possível de ser arrancado da minha cara abobalhada. Tenho para mim e torço por isso que toda mulher sabe o quão charmosas elas ficam devidamente calçadas com botas, mesmo que de coloração e modelo extravagantes como aquela vermelha mergulhada no verniz de anos atrás.

Se não sabem, já não é sem tempo.

E não só charmosas, como poderosas. Quem sabe aquela não tenha sido apenas a ocasião ideal para sua estreia, o que não significa que não existam passarelas para uma bota vermelha mergulhada no verniz. O mundo anda chato demais para que fiquemos ditando e repetindo e, pior, tentando tacar goela abaixo de todos as regras que o politicamente correto considera irrefutáveis.

Sou adepto de fazermos — homens ou mulheres — aquilo que nos faça bem. Que nos traga regozijo. Não creio que uma mulher use botas do mesmo modo que usa um par de havaianas. No fundo é justamente por saberem o poder que um par de botas exerce e possui. Que se cubra as canelas, que se escondam os joelhos, que tenham ou não zíper, que sejam salto agulha, que sejam do jeito que te fizer mais bela, mais charmosa e mais empoderada, que sejam iguais aquela: vermelhas mergulhadas no verniz.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.