Blá, blá, blás de um fã de meia tigela

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Quando o compact disc desbancou o long play, claro, promoveu uma revolução sem precedentes na maneira como consumimos música. A vida útil do primeiro, no entanto, foi menos prodigiosa do que se podia esperar, e o CD, esmagado pela era digital.

A música migrou para formatos mais práticos e acessíveis, bastando, nos dias de hoje, se muito, um fone de ouvido plugado num aparelho celular para se ouvir, em qualquer lugar, desde um b-side do Elvis até hits de vida curta como “Despacito”.

Sentir saudades das fitas K7 e dos aparelhos três em um com autoreverse, portanto, está fora de cogitação.

Aliás, não é uma ode à nostalgia ou sobre ser, ou não, mais divertido consumir música antes dos anos dois mil. Posso empilhar parágrafos cheios de argumentos fofos, que, provável, não consiga convencer ninguém nascido em meados da década de noventa que assistir a um show quando o celular era quase do tamanho de uma impressora, podia ser tão ou mais divertido do que é hoje.

Eu mesmo, tornei-me um fã de meia tigela.

Degringolei de assistir in loco os shows do The Who e do Bon Jovi, só para citar dois, porque a televisão me proporcionou tal experiência, com o adendo do conforto do meu sofá.

Também não é sobre isso: fãs de meia tigela.

Dizer que o show do Guns n´Roses no Rock in Rio 2017 foi decepcionante é muito mais fácil quando se vê pela televisão. Acontece que a tevê não substitui a experiência do “ao vivo”, do empurra-empurra, do cara de dois metros que para bem na tua frente e faz com que tu não consigas nem ver o que está rolando no telão, da vontade de mijar sabendo que se está no meio de vinte mil pessoas e sair do lugar significa “fim de festa”, do téte-a-téte com o artista mesmo que se passe longe de sequer triscar dele.

É preciso passar por tudo isso para se concluir que talvez seja mais interessante assistir pela tevê. Em dois mil e dez eu sai de Porto Alegre para São Paulo — numa epopeia de dois voos, ônibus lotação, metrô, táxi, fila para pegar o ingresso na bilheteria, explicações para o segurança sobre o porquê de eu carregar um guarda-chuva se não havia previsão alguma de São Pedro chorar — para assistir ao show do Rush no estádio do Morumbi. O conjunto da obra durou muito mais de doze horas, mas foi inesquecível. Nem sempre fui fã de meia tigela, que fique claro.

A era Spotify/Youtube — devem haver outras plataformas que o fã de meia tigela, aqui, desconhece — dá ênfase ao hit, o single, no caso do segundo ao lyric video. Ninguém quer saber das músicas novas do Titãs. O disco é item de colecionador. Vá lá, alguém tenha comprado a edição comemorativa de trinta anos de lançamento do “Cabeça Dinossauro”. A experiência de se manusear um álbum, com direito a regozijo com o chiado da vitrola o cheiro do encarte novo é causo que se conta numa reunião de amigos trintões numa sexta-feira à noite.

Logo, de uma meia dúzia.

Mais: uma meia dúzia que não vai ao Rock in Rio para ver o Thirty Seconds To Mars antes do Red Hot Chili Peppers e talvez nem aguente acordado pra ver e ouvir “Give it away”.

O fato é que muito se reclamou sobre o público da recém encerrada edição do festival estar mais preocupado com as selfies do que com a música. Mas é óbvio que está. E sejamos francos, é até natural. O Rock in Rio não é um festival feito para fãs, da mesma forma, que não é um festival que priorize o estilo que carrega no nome. É, quando muito, um evento para se ostentar o fato de se ter ido, mesmo, que não seja mais preciso comprar uma camiseta preta escrito “eu fui” com letras garrafais nas costas.

Ninguém chiou que o The Who tenha deixado para a trupe de Sir. Axl Rose a honra de se tocar “The Seeker”. E isso, minha gente, é crime.

Sem mais.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.