Bats, Joël Bats

Na primeira vez que ouvi falar de Josimar, tinha sete anos e esperava meu pai ou mãe vir me buscar, como todos dias da semana, na escadaria da entrada principal do colégio de freiras que estudava. Era um final de tarde de 1986 e Josimar, o autor de um dos gols da vitória de 3 a 0 da Seleção Brasileira contra a Irlanda do Norte, na estreia do escrete canarinho na Copa do Mundo do México.

O lateral de jeito desengonçado marcou uma segunda vez com a camisa amarela, se não me falhe a memória, contra a Polônia, e muito provável, seja um dos principais responsáveis por tornar os dias que se sucederam tão marcantes.

“Josimar, autor de dois dos gols mais bonitos já feitos pela Seleção em Copas”

A Copa do Mundo do México, é bom que se diga, embora seja a primeira que tenha registrada na memória, resume-se a alguns fragmentos esparsos, além, claro, do camisa 13 do time de Telê Santana. Ei-los: Osmar Santos, la mano de Diós de Don Diego Armando Maradona, os irmãos Laudrup e a Dinamáquina , o fatídico jogo contra a França de Platini e, infelizmente, Bats, o goleiro francês.

Não vi e nenhuma das crianças, primos, primas e amigos viram o duelo válido pelas quartas-de-final da Copa vencida pouco depois pela Argentina, de Valdano e Burruchaga. Os adultos sim, empoleirados na sala da casa dos tios, entre o fazer do churrasco e o abrir de outra garrafa de cerveja — é impossível não recordar o bar, de madeira envernizada, estrategicamente posicionado bem no meio da sala de estar.

Às crianças, não interessava o jogo, era muito mais divertido aproveitar o gramado em frente à casa para jogar bola. Simular, entre outras coisas, as jogadas de Josimar, Sócrates, Zico e Careca. No nosso campinho a Seleção Brasileira quase não sofria perigo, era imbatível e Carlos, o melhor goleiro do mundo. Empilhava gols, isso sim, e jogadas de efeito, às vezes, repetidas até que dessem realmente certo e algum de nós pudesse imitar o jeito característico de Osmar Santos narrar. A brincadeira era apenas interrompida quando algo de importante acontecia na tevê e a reação dos adultos nos fizesse correr para ver. Gol de Careca. Gol de Platini. Pênalti para o Brasil. Ápice.

Não guardo lembrança do momento exato da cobrança. Do erro. A reação geral, esta sim, foi colérica. Xingamentos de todos os lados. Adultos e crianças. Pobre Zico. Voltamos a brincadeira, pés descalços, reinventando o impossível, recriando a cobrança. Gol. No nosso campinho a Seleção Brasileira era sempre a vencedora, ainda que tivéssemos de repetir a batida dez ou vinte vezes. O pênalti defendido por Bats, fez com que o jogo terminasse empatado e fosse para a prorrogação. Isso significava que tínhamos, eu e os primos, primas e amigos da vizinhança, ao menos, mais trinta minutos para fazer daquele gramado o próprio Estádio Azteca.

A prorrogação também terminou empatada. Veio a decisão por pênaltis e aí é preciso um parêntese especial: não sei precisar se antes ou depois do resultado final, da cobrança que classificou a França, mas, sofri uma queda de uma altura de aproximadamente dois metros, na extremidade do terreno. Tanto ela (a queda) pode ter acontecido em algum momento dos dois tempos da prorrogação, quando tentava alguma jogada por lá e por descuido ou empurrão acabei caindo, quanto, por alguma reação irritadiça provocada pela derrota da Seleção. Tudo que sei e lembro é que houve uma queda, algumas escoriações, cotovelo ralado e cascas de ferida para arrancar nos dias que se sucederam.

Na ida para casa eu chorei copiosamente no banco do carona do Fiat Uno cheirando a novo do pai. Solucei, inconformado com o tombo, com a derrota, com o cotovelo ralado. Eu não sabia perder. Até aquele momento da minha tênue vida, não havia espaço para percalços, atropelos, tombos. Zico, o camisa dez, foi o responsável por me mostrar, a duras penas diga-se, que nem sempre o resultado alcançado é o esperado, o desejado. O craque do Flamengo não se transformou no ídolo que eu gostaria que ele se transformasse. Nem Josimar, nem Sócrates, Careca ou qualquer outro daquele fatídico 1986. A lembrança mais vívida e, ao mesmo tempo, mais dolorosa, é e continuará sendo, por todo sempre, amém, Bats, Joël Bats, o goleiro francês.