Batata-frita, Bebeto e Romário e o perfume dela

Poucas são as certezas que temos na vida. Morrer e envelhecer, talvez e possivelmente, estejam entre elas. Melhor seria o contrário: envelhecer e morrer. Nessa ordem. Coisas as quais não podemos escapar, embora algumas pessoas, por uma dessas peripécias da vida, que talvez nunca saibamos explicar, nos deixam antes do tempo devido, como um cravo apertado das costas sem que estejamos preparados.

E só quem já teve, sem apelo, as costas atacadas para o arranque de uma meia dúzia dos cravos de estimação, pode e vai minimamente compreender a analogia, podendo, com raso esforço, sentir o bafo quente da dona da foice estupidamente trajada – como certa vez cantou um tal maluco belezaem seu vestido de cetim.

Mas, não é sobre a elegância da morte ou sobre cravos nas costas que gostaria de escrever essa semana. É sobre batata-frita.

Isso mesmo: batata-frita.

Ora, pois, ouso igualar o prazer em degustar uma refratária tamanho família de batata-frita como uma dessas certezas indubitáveis da vida, sabendo, que a dona morte, invejosa que é, não sabe, tampouco, nunca saberá, como é bom comer batata-frita.

Ah, mas não sabe mesmo.

E se à batata, cuidadosamente picada em palito e crocante que faça crack na boca, estiverem salpicados alguns cubículos de bacon frito em boa gordura e queijo derretido, pelos deuses, nem a morte ou o envelhecimento, esse insensível que nos expõe à calvície, à barba grisalha, à celulite e estrias, serão páreos.

Nunca, nem jamais.

Porque batata-frita, bacon e queijo são uma daquelas combinações perfeitas como Bebeto e Romário ou Jagger e Richards.

Não tem como dar errado.

É sorriso certo.

Regozijo.

Prazer.

Mas, esperta que é, a tresloucada que vaga pela escuridão com uma foice em uma das mãos, muito provável que por não ter tido – jamais – a chance de se lambuzar com uma porção generosa de batata-frita, alguns cubículos de bacon frito em boa gordura e queijo derretido, decidiu que o excesso dessa combinação nos reservará um encontro precoce com ela.

Injusto.

Eu sei.

Como se tivéssemos que simplesmente abortar a dádiva de olhar com ar confiante para o garçom e dizer:

– Fritas, com bacon e queijo, por favor. Ah, e um chopp também.

Não.

Não, não e não.

Como disse, não quero – ou queria – escrever sobre a morte. Queria falar de algumas das certezas mais irremediáveis que temos ao longo da vida. Só. O prazer de comer uma porção generosa de batata-frita, bacon e queijo derretido, ora, está entre elas, e você, aposto, divide comigo a mesma opinião.

Falemos e lembremos – sempre – coisas boas. O perfume dela. Ah, o perfume dela. Me faz até esquecer o quão bom é o prazer de comer aquele montão de batata, cuidadosamente picada em palito e crocante que faz crack na boca, salpicados com alguns cubículos de bacon frito em boa gordura e queijo derretido.

E quer saber: quem lembra da dona da foice estupidamente trajada  em seu vestido de cetim ou das costas cobertas de cravos.

Eu que não.

Por fim, só consigo lembrar e pensar no perfume dela.