Autoflagelo por escrito

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Peguei um lápis, apontado com faca de serrinha, e comecei: “Eu sou absolutamente insuportável”. Pensei um pouco. Soou exagerado. Sem borracha, risquei o “Eu sou” e substitui por “Devo ser”. Ficou assim:

Devo ser absolutamente insuportável.

Nojento. Aqui o lápis já falava por si, sem me obedecer. Continuemos.

Meu cachorro é o único ser do universo que me aguenta, oras, é um cachorro e cachorros tem o dom de serem dóceis, incluso, com quem tanto se esforça para ser desprezado. Meu caso. Toda manhã, ele me espera levantar para darmos uma volta pelo bairro. A rotina é sempre a mesma. Quando eu pulo da cama, ele começa a chorar, a paciência que parecia óbvia transforma-se em agonia, em pranto. Uma choradeira quase irritante. Fazemos sempre o mesmo caminho e ele levanta a pata sempre nos mesmos postes e nas mesmas árvores.

Ocasionalmente, meu pai nos acompanha e sempre dá bom dia para quem passa.

Eu não.

Já disse: devo ser irrefutavelmente insuportável. Nojento. Não dou bom dia para ninguém. Nem faço questão. Viro a cara. Até o cusco sem dono que vagueia pelo bairro mantém distância. Ele sempre procura o velho. Nunca a mim.

Por isso, repito: o único ser do universo que me aguenta é meu cachorro.

Mais ninguém.

O resto, apenas suporta.

A essa altura, quem haverá de confiar no que esse maldito lápis escreve — juro — por conta e risco?

A propósito de toda esquizofrenia dessas linhas de irreconhecível caligrafia, cheguei à conclusão tratar-se de um talento raro. Só pode ser. Afasto as pessoas do meu convívio por puro talento. Saí do grupo de whatsapp da família, vejam só. O universo inteiro enfiado em grupos de whatsapp da família e eu, o nojento e insuportável, não. Blasé. Diferentão. O certo é que cansei de tanta bobagem. Florzinha. Memes. Áudios fake. Trechos bíblicos e Améns. Você não?, Confessa? Okay, não fui expulso, antecipei-me, vá lá.

Meu irmão tentou argumentar. Pediu que eu relevasse. Mas, não.

Não.

E, NÃO!

Birra!

Aprendi, sabe-se lá com quem, a preservar uma teimosia fora do comum, em especial, quando se trata de dar o braço a torcer. Há um ditado que virou filme com o Jack Nicholson que diz, em alto e bom e tom que alguém tem de ceder. Só que entre nós, seres humanos, parece existir uma necessidade em esperar até a corda estar totalmente esticada. Ninguém quer ceder. Ninguém quer dar o braço a torcer. E, então, a corda não só estica, como estoura.

Ah — olha o lápis rabiscando por conta própria de novo — mas eu devo pertencer a uma categoria especial que quando nota a corda esticada, tira uma tesoura do bolso (Por que alguém que não um piscopata teria uma tesoura guardada no bolso?) e põe tudo a perder de vez, só para sustentar a fama.

Fama?

Que bobo, que nada!

Insuportável.

Impiedosamente insuportável, capaz de empilhar esses malditos advérbios terminados em mente para se autoflagelar. Criar propaganda ruim de si mesmo, sem motivo aparente. Talvez, tudo e nada ao mesmo tempo, explica-se pelo fato de o vinho que ainda havia no garrafão tenha virado vinagre.

É.

Por que não?

Menos mal que meu cachorro não saber ler, senão, corria um sério risco de perder o único ser entre todos no universo capaz de me aguentar, suportar e, mais importante, amar.

Ah, que pena, a ponta do lápis quebrou. Nem ele aguenta tanto dramalhão.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.