Às vezes a gente melhora, mas passa

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Assistindo, pela segunda vez, Relatos Selvagens, a espetacular película argentina, sucesso absoluto de crítica e público, percebi que o episódio do casamento, último do longa, é quase — veja bem, quase — uma analogia do que  são e se transformaram os “textões” na internet, em especial, claro, aqueles vomitados como verdade absoluta no Facebook — vide, a maioria.

No episódio em questão, em tradução livre para o português, Até que a morte nos separe, uma noiva descobre, no dia do casamento, que é traída e que a amante do futuro marido está entre os convidados da festa.

A sucessão de eventos, no entanto, consegue transformar a pasmaceira tradicional de uma cerimônia de casamento no mais absoluto caos. Isso mesmo, agora em caixa alta: CAOS. O fracasso da relação, escancarado até as tripas, para todo olhar reprovativo e julgamento precoce. Igual — salve esteja ficando maluco — ao que se propõem quem posta textão na internet. Este, aliás, está preocupado apenas e tão somente com o próprio umbigo. Mais: quer chamar atenção a todo custo.

Se a relação é mentirosa então que todos saibam.

Se é barraco o que se quer, barraco é o que se terá.

Não quero, nem pretendo, justificar as razões que fizeram a noiva retratada pelo cinema argentino tomar as decisões que tomou, mas, parece óbvio que a inconsequência parece estar presente em ambos, no filme e nos textões — ainda que não necessariamente os textões na internet versem exclusivamente sobre os perrengues a dois.

Reparem.

Vale o esforço.

De uma hora para outra, tudo virou razão para se empilhar parágrafo atrás de parágrafo e enter.

Pimba.

Como num passe de mágica o desabafo vira a única realidade/verdade possível.

Ter um textão viralizado virou objetivo de vida.

E por isso reclama-se e fala-se e cospe-se qualquer coisa, com um enfeitezinho aqui e acolá, tudo em prol de angariar uns quantos milheiros de curtidas e compartilhamentos.

Está chato.

E, muitas vezes — na maioria — constrangedor.

Tudo, qualquer coisa, virou razão para empilhar parágrafo atrás de parágrafo, enter atrás de enter. “O que você está pensando?” Opa, lá vem textão.

O dedo na ferida que já está até cicatrizada. Mil vivas à selvageria.

Os textões na internet são exatamente isso.

Relatos Selvagens.

No ambiente virtual, no entanto, perdura uma crença desvairada de que tudo é permitido. Válido. Ainda. Como se o reclamante estivesse falando num megafone e todos, em absoluto, tivessem de concordar ou crer ou aplaudir.

Tomar para si as dores.

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Apropriando-me de aspas da incomparável e única, Lygia Fagundes Telles, “o mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes a gente melhora, mas passa”.

Só parece que não avisaram as redes sociais.

Que passe. Às vezes a gente melhora. Às vezes.

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.