Amar sem esquecer

Ainda faltam dois goles frios e insossos de café na xícara. Dizem que o amor, assim como o café, esfria e às vezes, também se transforma num gole esquecido no fundo de uma xícara.

Tanto um quanto outro, esfriam por esquecimento.

Seja motivado por uma distração em vista de tanta pressa e dúvida, prazos e contas, tédio e marasmo, às vezes esquecemos de amar.

Compartilhar o que sentimos.

Extravasar e repetir.

Amar pra fora e não pra dentro. Guardado. Amor guardado. Nos pelos fedorentos da axila enganada com um desodorante comprado em farmácia. Sem banho. Escondido. Esquecido.

Uma vez, há muitos anos, entretido com um trabalho fora de hora, que se prolongou da mais tenra manhã até a despedida da noite, fui pego de surpresa com uma mensagem do meu irmão, lembrando que eu havia esquecido do aniversário de um antigo affair — que muito provável me odeia hoje em dia.

Sentando numa poltrona nos bastidores, com as pernas em frangalhos e os ouvidos castigados pelos hits da Calcinha Preta, lembro de ter fechado os olhos e dito baixinho, para que apenas eu pudesse ouvir: Puta que pariu. Esqueci. Por completo. Ciente que não haveria perdão.

Eu era o chumaço de pelos fedorentos da axila, mas, sem nenhum desodorante comprado em farmácia para enganar a inhaca, a falha. O esquecimento.

Porque existem amores que não podem ser esquecidos de compartilhar, de extravasar, de repetir e de avisar.

E foi só isso: esquecimento.

E talvez àquela altura o gole que restava na xícara já estivesse mais pra frio e insosso que pra qualquer outra coisa.

O amor nos faz bobos e inquietos e necessitados de retribuição. Aprendemos que o amor só é amor se vier escrachado no rastro de uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça. E, ao passo, que formamos as mais absurdas expectativas, cometemos os mesmos erros que não queremos que cometam conosco.

E de novo: esquecemos.

Porque ao contrário do que cantava Cazuza — e que pena, por isso — amar não é só invenção e distração. Não existe isso de quando acabar, pensar que nunca existiu.

Aliás, bom seria.

Mais fácil.

Mas o óbvio é machucar e entre um esquecimento e outro, ter de beber de novo um ou outro gole frio e insosso de café e/ou enganar os pelos fedorentos da axila com desodorante comprado em farmácia.

Ontem mesmo alguém me disse outra vez: não existe amor à primeira vista.

Que, ao menos, possamos amar sem esquecer.