Alguém?

By  |  0 Comments

Os telefones não tocam mais, já repararam?

Hoje, eles apenas vibram, normalmente enfiados nos bolsos da calça jeans ou deslizando sobre a mesa dos nossos locais de trabalho. Houve um tempo, no entanto, telefonemas na madrugada eram sinal de que algum acontecimento desagradável tinha acontecido. Duvido existir alguém que goste ou guarde boas lembranças de telefonemas recebidos altas horas da noite. A opção de silenciar os celulares ajudou a sepultar o mito. Se o aparelho estiver longe do travesseiro é provável que só vejamos a ligação na manhã seguinte.

O próprio ato de ligar para alguém está em desuso. Tudo tem se resumido a mensagens de texto e de áudio. Boas conversas tornaram-se escassas. A alegação é quase sempre a mesma: não há tempo. A agenda está cheia. Estou cansado. Blá, blá, blá. Sempre o mesmíssimo discurso.

Nos saudosos tempos das salas de bate-papo na internet conheci uma garota de uma cidade da região metropolitana de Recife. Durante meses, mantivemos a rotina de telefonarmos um para o outro todo domingo à noite. Era quase um ritual. Raras vezes minha orelha esquentou tanto ou ficou tão vermelha quanto naqueles telefonemas.

Compartilhamos experiências, dúvidas, sonhos. Trocamos uma meia dúzia de correspondências. Fotos. O ápice do demodê. Fomos bons amigos. Confidentes.

Não tenho notícias dela há uns dez anos. Espero que esteja bem. Feliz. É o que me resta.

Lembrei dela quando comecei a escrever essa crônica, talvez, por ter chegado à conclusão que conversas como aquelas tornaram-se escassas. Tenho a impressão que ninguém mais tem paciência para ouvir ou saber das dores dos outros.

Acumuladores de angústias é o que somos, de fato.

Especialistas em deixar para amanhã a conversa, a ligação, o desabafo. PHD´s na estranha arte do fingimento.

Uma amiga de São Paulo me ligou no meu aniversário. Ao final da conversa, fizemos um pacto de repetirmos a dose semanalmente às quintas. Faz quase um mês. Nunca repetimos. Tenho outra amiga, que, embora more há menos de 100km de distância, toda vez que conversamos eu renovo a promessa de uma visita que nunca acontece. É embaraçoso. Tornamo-nos distantes sem querer e fazemos quase nada para evitar o dia em que seremos estranhos com um passado em comum.

Desisti de procurar alguém como a “velha” amiga dos telefonemas de domingo. Às vezes eu gostaria de alguém para conversar antes que o Tadeu Schmidt comece a filosofar ao lado de cavalinhos de pelúcia vestidos com camisetas de futebol. Diferente do irmão do Oscar, comecei a conversar sozinho. Anunciei nas minhas aulas de inglês que tinha um amigo imaginário com quem praticava o pouco mais do verbo to be que sei.

Menti.

Devo ter bem mais que uns cinco amigos imaginários com quem compartilho todo naipe de sandices, em português, em inglês e em maluquês.

Tudo bem que não é domingo, mas, não custa perguntar: alguém a fim de conversar?

Jornalista, gaúcho e amante de coisas simples como uma boa leitura, um bom filme - de preferência no cinema e caminhadas desaceleradas ao lado de quem se gosta. Observador, peculiar e sagaz: nada escapa à mente rápida desse guri de dentes separados na frente. Autor do livro A Gaveta do Alfaiate.