Alguém para ouvir

By  |  0 Comments

A noite tinha sido demasiadamente longa. Não pregara os olhos momento algum. Carregava no peito um aperto que lhe roubava o ar. No primeiro raiar de luminosidade levantou, colocou suas costumeiras roupas e após sorver alguns goles de café foi até sua vizinha. Bateu à porta, não tardou a vizinha aparecer. Sua face demonstrava surpresa, afinal para um domingo de manhã tal situação era inusitada. Ela disse: eu gostaria de conversar! A vizinha encabulada disse algo do tipo: você não quer voltar depois? Acabei de levantar e preciso arrumar algumas coisas…

Ela saiu às ruas e, caminhando em direção ao centro da cidade encontrou uma simpática senhora sentada no banco da praça. Tal senhora estava bastante perfumada e, a julgar sua roupa bem passada, devia estar fazendo hora antes de ir para alguma igreja. Ela disse: Eu gostaria de conversar! A senhora prontamente disse que sim e começou a falar da bíblia, de Jesus e de tantas coisas entre o céu e a terra que Ela não teve nem voz e nem vez. Por fim, a senhora olhou seu relógio, alegou estar atrasada e despediu-se apressadamente.

Ela seguia angustiada. Precisava verbalizar seu sentimento. Precisava dar voz à sua dor. Seguiu caminhando e, amanhecendo num bar de esquina encontrou um jovem que certamente tinha passado a noite divertindo-se. Pensou consigo mesma que talvez fosse alguém ideal para conversar. Ela disse: Eu gostaria de conversar! E, antes que Ela pudesse terminar de falar, o jovem passou a dissertar sobre sua vida, seus problemas, seus dilemas. O jovem dizia: Não fique triste com isso! Olha, eu já passei por coisa muito pior! Acredite tem gente numa pior!

Ainda sem ter encontrado um ouvido empático, Ela estava a ponto de sucumbir. Caminhou sem parar e chegando à plataforma de trem da cidade ficou pensando em arremessar-se diante da locomotiva já que não conseguia falar de sua dor. Enquanto divagava em seus pensamentos, um senhor que a observava de longe, segurou-a pelo braço e perguntou: Você gostaria de conversar? Ela respirou fundo e, com todo o ar que inspirara, disse um desesperado sim.

Sentados num banco da estação de trem, o senhor ouviu Ela com toda paciência e atenção. Ela não precisava de conselhos. Ela não precisava ter sua dor relativizada ou comparada. Ao que tudo indica aquele senhor não disse nada, nem precisou, pois Ela precisava apenas falar e sentir que alguém a ouvia de verdade.

Carl Rogers, psicólogo humanista, dizia: Quando percebem que foram profundamente ouvidas, as pessoas quase sempre ficam com os olhos marejados. Acho que na verdade trata-se de chorar de alegria. É como se estivessem dizendo: “Graças a Deus, alguém me ouviu. Há alguém que sabe o que significa estar na minha própria pele”.

Bacharel em Teologia pela Faculdades EST, pomerano e capixaba de Santa Maria de Jetibá. Um tanto quanto narcisista, perfeccionista e analítico. Dialoga com teologia, filosofia e psicologia buscando na simplicidade do cotidiano sua inspiração espiritual.