Ah, danem-se os pelinhos grisalhos

Ambrosia.

Nham, nhammm.

Do grego, manjar dos Deuses do Olimpo.

Delícia irresistível.

A melhor que já comi está bem perto em um movimentando restaurante da cidade. Uma vez por semana, ao menos, reservo um dia para – depois do almoço – encher uma taça de sobremesa de inox até quase transbordar e entre uma colherada e outra lambuzar o bigode e a barba que insiste em me presentear com novos pelinhos grisalhos.

Hummmm.

Danem-se os pelinhos grisalhos.

Roga a lenda que o doce de divinal sabor tinha (ou tem) o poder de cura e se um mortal comum o comesse ele morreria. Diz a história que, quando os deuses o ofereciam a algum humano, este, ao experimentá-lo, sentia uma sensação de extrema felicidade.

Extrema felicidade. É exatamente isso que sinto toda vez que transbordo a taça de inox com o doce dos Deuses. E rio e fecho os olhos e só não grito e aplaudo de pé para não soar deslocado ou parecer um retardado querendo 15 segundos de fama gratuita.

– Deuses do Olimpo, obrigado por me conceder o privilégio de degustar este doce divinal sem que morra como um pobre mortal. Obrigado, obrigado e obrigado.

Tem mais:

O nome Ambrósio, que vem da mesma raiz, significa divino e imortal e segundo a mitologia grega, esse manjar divinal era tão poderoso ao ponto de ressuscitar qualquer um, bastando apenas que alguém pusesse em sua boca.

Uau!

Sexta-feira comemorou-se o Dia Mundial do Diabetes. Meu pai tem diabetes. Minha mãe fazia ambrosia. Não tão espetacular quanto esta que me faz lambuzar o bigode e os malditos pelinhos grisalhos da cara, mas, doce e, talvez, equivalente em divindade, se for me valer da história dos gregos.

Depois de ler sobre os sintomas, os fatores de risco e o que fazer para prevenir a diabetes, tive medo de, muito em breve, não poder mais repetir o ritual da ambrosia: transbordar a taça de inox, fechar os olhos na primeira colherada e lambuzar o bigode e os pelinhos grisalhos da barba regozijando-se de uma extrema e radiante felicidade.

Ai, será?

O que pensar se num rompante de insanidade resolvesse me levantar e aos gritos, com os braços erguidos e uma calorosa salva de palmas saudasse os deuses e as hábeis mãos responsáveis pela melhor ambrosia que já comi até hoje.

O que pensar?

E aqueles que não podem comer o manjar dos Deuses e talvez, virem o rosto do reservado a sobremesa só para não serem tentados pela textura, pelo brilho, pela coloração dourada da ambrosia convidando-lhes a se lambuzar e ultrapassar a tênue linha entre o certo e o errado, a emoção e a razão, o bem e o mal.

Sim, porque escolher entre comer ou não a divinal ambrosia do movimentado restaurante é decidir-se pelo bem ou pelo mal.

Será que ainda seria respeitado e considerado uma pessoa normal se argumentasse que a ambrosia, segundo a mitologia grega, era um manjar com tanto poder a ponto de ressuscitar qualquer um, bastando apenas que alguém pusesse o manjar na boca do morto.

Não, não e não.

Manterei o bigode e os indesejáveis pelinhos grisalhos da barba lambuzados pela melhor ambrosia que já comi até hoje, ao menos, até que meus receios quanto à diabetes não se tornem realidade ou eu resolva tomar vergonha na cara e comece urgentemente a praticar exercícios, alimentar-me bem, manter o peso correto e realizar caminhadas diárias.

Até lá, uma vez por semana. Obrigado, Deuses do Olimpo.

 

***

Reparou quantas vezes a palavra divinal aparece no texto? Quem achou um exagero e quase parou a leitura por conta disso, tem direito de repetir o “doce divinal” quatro vezes da próxima vez.

 

Só pra constar, talvez a taça nem precise ser de inox pro manjar ser dos Deuses.